| | Textos Envelhecimento v.8 n.3 Rio de Janeiro 2005
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Atividades em grupo – alternativa para minimizar os efeitos do envelhecimento
Activities – an alternative to minimize aging effects
Alessandra de Fátima João¹
Ângela Andréa Zampieron Sampaio²
Elaine Aparecida Santiago³
Raquel de Cássia Cardoso4
Rosangela Correa Dias5
RESUMO
O envelhecimento populacional é um dos maiores desafios da atualidade. Pesquisadores de diferentes áreas têm mostrado interesse na fase da terceira idade. Um dos motivos principais é o rápido crescimento da população brasileira com mais de 60 anos. O objetivo deste estudo foi realizar, por meio de uma bibliografia comentada, uma análise criteriosa de artigos científicos que investiguem os benefícios preventivos e minimizadores dos efeitos do envelhecimento, através da participação de idosos em grupos de atividades e sua contribuição para a melhora da qualidade de vida com maior autonomia e independência. Foram realizadas consultas em bibliotecas e nas bases eletrônicas de dados entre 1998 e 2004. Com base nos critérios de inclusão, seis artigos foram selecionados e foi realizada a análise da qualidade das evidências de acordo com a metodologia proposta por Law et al. (1998). Os resultados foram comparados em tabela, centrando-se nos seguintes pontos: autores, objetivos específicos, amostra, desenho do estudo e principais resultados. Esta bibliografia comentada aponta a viabilidade do trabalho realizado com indivíduos da terceira idade inseridos em grupos de atividades, possibilitando a intervenção de terapeutas ocupacionais e outros profissionais interessados em atuar junto a grupo de idosos.
PALAVRAS-CHAVE: Envelhecimento da População; Idoso; Qualidade de Vida; Autonomia Pessoal; Avaliação de Resultados (Cuidados de Saúde); Bibliografia; Bases de Dados Bibliográficas.
INTRODUÇÃO
Epidemiologia do envelhecimento
O aumento da expectativa de vida populacional, dentre outros fatores, tem grande impacto sobre o envelhecimento da população mundial. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a atual expectativa de vida é de 66 anos, e até 2025 passaria a ser de 73 anos (OMS, 2000). No início do século XX, o tempo de vida médio do brasileiro era 33 anos; hoje, essa média subiu para 71,3 anos em 2003, contra 70,5 anos em 2000, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2004). O Brasil somente deve alcançar o patamar de 80 anos de expectativa de vida por volta de 2040. De 1980 a 2003, essa expectativa cresceu 8,8 anos – 7,9 anos para homens e 9,5 anos para mulheres. O número de pessoas com idade superior a 65 anos já ultrapassa os 10 milhões e estima-se que até o ano de 2020 essa proporção triplique, colocando o Brasil como o sexto país no mundo com maior número de idosos.
Embora o envelhecimento da população seja quase um fenômeno mundial, os países europeus demoraram cerca de 100 anos para que acontecesse a mudança na faixa etária de seus cidadãos. No Brasil, esse fenômeno ocorreu em apenas 30 anos. Nossas instituições, o casamento, o Estado, as empresas, o sistema de saúde e previdenciário vêm de uma época em que apenas 3% das pessoas ultrapassavam a barreira dos 65 anos. Conseqüentemente, não estamos adaptados a essa nova realidade social, na qual o número de idosos inativos já ultrapassa o número de adultos ativos (IBGE, 2004).
Perspectivas e impacto do envelhecimento em relação ao futuro
A população brasileira vem envelhecendo desde o início da década de 60, quando a taxa de fecundidade começou a alterar a estrutura etária, estreitando progressivamente a base da pirâmide populacional. Passados 35 anos, a sociedade já se depara com um tipo de demanda por serviços médicos e sociais, outrora restrito aos países industrializados. Em um contexto de importantes desigualdades regionais e sociais, os idosos não encontram amparo adequado no sistema público de saúde e previdência; acumulam seqüelas das doenças crônico-degenerativas e complicações dela decorrentes, desenvolvem incapacidades, perdem autonomia e qualidade de vida (Chaimowicz, 1998).
Por estar intrinsecamente relacionado à modificação da incidência e prevalência de doenças na população, a velocidade com a qual esse processo vem ocorrendo deverá determinar grandes dificuldades para a sociedade lidar com o novo perfil epidemiológico que aos poucos se sobrepõe, sem substituir completamente o perfil que antes predominava.
Chaimowicz (1998) relata que é imprescindível investir em programas de suporte aos idosos e cuidadores, oferecimento de serviços como centros-dia e hospitais-dia e de apoio em áreas de alimentação, transporte, assistência médica, serviços de orientação e atividades culturais. Atividades preventivas e de reabilitação realizadas nas unidades de saúde são imprescindíveis para manter ou para resgatar a autonomia de idosos e poderão ter grande impacto na saúde dessa população (Ramos apud Chaimowicz, 1998).
Como processo natural do envelhecimento, o indivíduo passa por modificações fisiológicas, com maior fragilidade e vulnerabilidade a intercorrências patológicas, nos aspectos biológicos, psicológicos (afetivo, emocional e cognitivo) e social. No aspecto social, destacam-se as perdas de papéis ocupacionais significativos, muitas vezes com restrição à participação no contexto, o que justifica a investigação do grupo de atividade como contribuição para um envelhecimento saudável e com qualidade. A sociabilidade criada nos grupos remete, assim, à questão do apoio social e sua repercussão positiva na saúde (Valla apud Assis, 1998).
Teoria de Grupo aplicada ao envelhecimento
O grupo funciona como uma “caixa de ressonância”, onde a interferência em um elemento repercute nos outros como uma rede vincular. “Grupo é um conjunto de indivíduos ligados por constantes de espaço e tempo, articulados por mútuas representações que se propõem de forma implícita e explícita a uma tarefa que constitui sua finalidade, interatuando através de complexos mecanismos de assunção e adjudicação de papéis” (Maximino, 2001). A atividade é facilitadora desse processo. À medida que se estabelece uma articulação entre os sujeitos do grupo na qual assumem e delegam papéis um ao outro, a comunicação possibilita a aprendizagem e, conseqüentemente, a apreensão da realidade. O vínculo é condição básica para o sucesso do grupo; é quando um sujeito se torna significativo para o outro (Maximino, 2001).
Segundo Zimerman (2000), o indivíduo é um ser gregário e, durante seu desenvolvimento, passa por diferentes grupos: família, amigos, escola e trabalho. O idoso, no decorrer de sua vida, já transitou por todos esses grupos, devendo ter todas as condições internas e a necessidade de se filiar a um grupo de pessoas iguais a ele. Na utilização do processo de grupo, através das múltiplas relações que se dão entre seus componentes, visamos à integração do indivíduo no grupo, possibilitando sua extensão individual como membro operante deste, de sua família e de sua comunidade. Pela formação de um vínculo com os elementos do grupo, os quais dão segurança, apoio, compreensão e liberdade entre si, é que alcançaremos o almejado: dar condições aos componentes para que se desenvolvam livres e sadios.
Um grupo só se torna grupo – isto é, mais do que uma soma de indivíduos – quando desenvolve determinado tipo de relacionamento, um vínculo, uma força que dá a ele um sentido de pertinência; uma força que regula a conduta dos membros e os faz comportar-se de maneira peculiar, distinta da interação individual e da de outro grupo qualquer. É por meio das experiências, das interações e das oportunidades de vivências que surgirão mudanças no comportamento, tanto do indivíduo quanto dos elementos dos sistemas. É no grupo que o indivíduo reconhece valores e normas, tanto seus como dos outros.
Os grupos dos idosos têm uma peculiaridade: à medida que os anos vão passando, as perdas de pessoas aumentam e os grupos exigem uma reestruturação. O que acontece é que, por uma série de razões, os indivíduos acabam não refazendo seus contatos e ficando sem seus grupos, sejam familiares, de trabalho, de lazer ou outros. Há uma grande necessidade de fazê-los participar de novos grupos e ajudá-los a se enquadrar naqueles que maior satisfação vão lhes proporcionar.
METODOLOGIA
O objetivo deste estudo foi investigar, através de uma bibliografia comentada, por intermédio da seleção e da análise criteriosa de artigos científicos, os benefícios preventivos e minimizadores dos efeitos do envelhecimento, da participação dos idosos em grupos de atividades e sua contribuição para a melhoria da qualidade de vida com maior autonomia, independência e participação.
A pesquisa foi feita por quatro pesquisadores, através de consultas em bibliotecas e nas bases de dados eletrônicas SciELO, LILACS, Biblioteca Virtual da Saúde e Portal CAPES, seguindo como estratégia de busca a língua portuguesa e as palavras-chave: idoso, terceira idade, grupo, inclusão, aposentadoria e qualidade de vida. Foi estipulado inicialmente, como critério de inclusão da referência, o tempo máximo de dois anos a partir da data da publicação, posteriormente estendido para sete anos.
Os artigos que atingiram os critérios de inclusão definidos anteriormente foram analisados criticamente, segundo a metodologia proposta por Law et al. (1998), os quais sugerem a criação de um fluxograma para a organização dos artigos discutidos. Os incluídos nesta revisão foram resumidos de forma padronizada, avaliando-se a citação completa do artigo, questão clínica de interesse, objetivos do estudo, literatura, delineamento do mesmo, amostragem, medidas, intervenção, resultados, conclusões e implicações clínicas.
RESULTADOS
Nas pesquisas foi identificado um total de 78 artigos, dos quais 16 foram pré-selecionados pelo conteúdo do título e pela concordância com os critérios de seleção definidos. Sessenta e dois foram descartados, por não focarem o tema grupo, e sim a atividade desenvolvida, por não se adequarem à análise crítica proposta por Law et al. (1998) e/ou por não apresentarem coerência no desfecho na intervenção e resultados. Após a leitura dos 16 artigos, uma nova seleção foi feita, sendo escolhidos sete artigos, dos quais um foi excluído por não se adequar à disposição dos dados na tabela 1 do estudo.
O interesse deste estudo, inicialmente, foi buscar o grupo de atividades com idosos conduzidos por terapeutas ocupacionais e, diante da escassez na literatura, foram estendidos a enfermeiros, fisioterapeutas, educadores físicos e outros profissionais da área de saúde. Novamente, deparou-se com outra limitação na literatura: pouca disponibilidade quanto à referência específica da modalidade de grupo, pois o maior número dos artigos focava os benefícios da atividade, e não a importância da participação do idoso no grupo. Portanto, foram incluídos seis artigos para esta revisão. A tabela 1 apresenta as seguintes informações sobre cada artigo: autores, objetivos específicos, amostra, desenho do estudo e principais resultados.
Na análise dos artigos a partir da metodologia proposta por Law et al. (1998), observou-se que cada um apresentava variações quanto à caracterização e tamanho da amostra, distinção entre objetivos gerais e específicos, tipo de metodologia e instrumentos de medida utilizados. Quanto à qualidade da evidência, os artigos selecionados apresentavam variáveis que não foram controladas pela escolha do tipo e momento da utilização do instrumento caracterizado pela proposta do estudo, o que gerou baixa confiabilidade dos resultados.
Em todos os artigos revisados, o grupo é apontado como uma estratégia para minimizar e prevenir os efeitos do envelhecimento.
TABELA 1 – SÍNTESE DOS RESULTADOS DOS ARTIGOS ANALISADOS | Autores | Objetivos Específicos | Amostra | Desenho de estudo | Principais resultados | | ALMEIDA et al. (1998)1 | • Avaliar mudanças ocorridas nos participantes do grupo no que diz respeito às carências iniciais.
• Analisar o processo de desenvolvimento do grupo.
| N=50 (10 ? e 40 ?)
48- 81 anos; até o 1o grau de escolaridade; maioria aposentada, católica, residente em casa própria e não participa de outra atividade grupal. | Revisão bibliográfica abrangendo aspectos do processo de envelhecimento e associando-os aos serviços da enfermagem. Foi feito um relato de caso que ilustra a experiência de um grupo de idosos da cidade de Fortaleza. | • Os resultados demonstraram que os participantes vêem o grupo como um lugar de encontros para compartilhar assuntos importantes da vida; para o lazer e para se expressar religiosamente.
• O grupo é um local propício para resolução de problemas de ordem biológica e social, através da formação de uma rede de solidariedade. | | ASSIS et al. (2002)2 | • Apresentar reflexões sobre o projeto de promoção da saúde desenvolvido no ambulatório Núcleo de Atenção ao Idoso da UnATI/UERJ. | N= 73 freqüentadores do GES (Grupos de Encontros com Saúde), no período de 1997-2000, foram coletados depoimentos no livro de registro de relato pessoais do grupo. Maioria ?; 60-69 anos; sem vínculo conjugal, aposentadas, escolaridade : curso primário ao superior, maioria com moradia própria e níveis variados de renda e percepção quanto à situação financeira. | Estudo qualitativo (depoimentos de grupos)
A partir dos depoimentos dos idosos que participaram do projeto, propõe uma avaliação exploratória do impacto do trabalho, à luz dos conceitos centrais do campo temático da promoção da saúde.
| • Considera-se, até o momento, que o projeto tem repercutido positivamente em aspectos relacionados a dois campos centrais da promoção da saúde: o desenvolvimento de habilidades pessoais (aprendizagem, auto-imagem, auto-estima, estímulo/motivação para a vida), e a reorientação dos serviços de saúde (humanização, integralidade da atenção, conceito amplo de saúde, interdisciplinaridade). | | BORINI et al (2002)3 | • Identificar as expectativas, motivos e significados da participação no grupo.
• Verificar se existem mudanças no cotidiano desses indivíduos, e se elas são conseqüências da participação no grupo. | N=13 (7? ; 6 ?);
61-78 anos, maioria viúva e católica; escolaridade; 1/13anos; 7 aposentados, 2 pensionistas e as demais não possuem vínculos previdenciários; os homens ocuparam cargos técnicos, serviços gerais ou mestres de obras; as mulheres são donas de casa; o tempo de ingresso no centro variou entre 02 e 20 anos. | Estudo exploratório: 14 entrevistas (4 na fase do pré-teste e 10 na pesquisa propriamente dita). Coleta de dados: janeiro (pré-teste) e julho de 2001, no próprio Centro Municipal de Convivência. Para a coleta de dados foi realizada, com cada sujeito, uma entrevista individual e semi-estruturada. | • Revelam que não há negação da velhice, mas sim oportunidade de resgate do tempo perdido, para vivenciar o prazer e a ludicidade, a convivência, o partilhar o tempo com sentidos e significados.
• Melhora do sentimento de saúde e felicidade; as atividades de lazer, eventualmente, substituem o efeito de outras terapêuticas (medicamentos). Maior domínio sobre o corpo. Mudança de “realidade fria” para a representação de uma nova vida, a “saída do poço”. | | CARDOSO et al. (2002)4 | • Descrever o efeito da intervenção terapêutica na criatividade, na expressão e na integração de idosos institucionalizados.
• Avaliar o envolvimento e a aderência dos idosos nessas atividades.
| N=10 (Ambos os sexos)
61-94 anos, 01 senhor de 55 anos.
Todos que manifestaram interesse pela música e pela dança. | Oficina realizada em uma instituição de BH/MG. Freqüência: 01 vez/semana com duração de 1h ½, ao longo de 4 meses. Foram documentadas através de relatórios nos quais foi feita uma análise qualitativa, discutindo-se os desempenhos dos participantes. | • Maior criatividade para a expressão corporal e verbal dos idosos; possibilidade de compartilhar suas experiências, contar suas histórias de vida, de relatar e retomar atividades do seu passado ocupacional; mostraram-se mais desinibidos, comunicativos e espontâneos, além de apresentarem aumento da amplitude de movimento, sobretudo nas atividades de aquecimento, deslocamento no espaço, ritmo e improvisação.
• A freqüência dos 10 participantes foi a seguinte: 06 -100%, 02 - 90%, 01 - 80% e 01 de 60%. | CASSIANO
(2001)5 | • Promover e avaliar o impacto de um programa interdisciplinar baseado em condicionamento físico e atividades terapêuticas no desempenho funcional e na qualidade de vida de adultos maduros e idosos da comunidade de BH. | N= 20 (ambos os sexos) com média de 63,6 ± 6,3 anos.
Todos apresentaram atestado médico de aptidão física.
| Idosos saudáveis avaliados antes e após uma média de vinte e duas sessões, considerando o desempenho funcional (velocidade da marcha, habilidade de subir escadas, Phh, endurance) e a qualidade de vida avaliada através do PSN. | • Melhora significativa em todas as medidas de desempenho funcional , exceto no índice de custo fisiológico; adquiriram ganhos substanciais na percepção da qualidade de vida dos participantes. | | GUARIDO et al. (2002)7 | • Descrever a experiência de estimulação cognitiva em idosos, com atenção aos aspectos emocionais e à qualidade de vida. | N= 12 (todas ?);
60-70 anos, voluntárias; escolaridade: curso primário ao superior; maioria casada. Apresentavam interesse, motivação e disponibilidade para participar do estudo; participavam com pessoas da mesma faixa etária de eventos socioculturais. | Pesquisa exploratória. Realização de um pré-teste individual, seguido de sessões semanais, em grupo, total de:24 encontros em 8 meses e, ao final, foi realizado pós-teste, repetindo-se a avaliação neuropsicológica individual. | • Houve manutenção ou pequenas melhoras no desempenho cognitivo. As auto-avaliações apontaram melhora na autoconfiança e a na auto-estima, o que se considera fundamental para preservação e generalização das mudanças obtidas. |
DISCUSSÃO
Diversos fatores devem ser considerados na análise das evidências disponíveis na literatura sobre a eficácia das abordagens terapêuticas nos grupos de atividades com idosos. Dos seis artigos incluídos nesta revisão, quatro estudos utilizaram metodologias qualitativas e dois, quantitativas. Cada artigo abordou um tipo de atividade, tendo como comum nos estudos o grupo de idosos.
De acordo com Assis et al. (2002) e Almeida et al. (1998), a experiência com grupos abertos não demonstrava a preocupação com a adesão dos idosos freqüentadores às atividades propostas. Já Cardoso et al. (2003), Cassiano et al. (2001), Borini (2002) e Guarido et al. (2003 ) trabalharam com grupos fechados, dando importância à aderência dos participantes e freqüência do tempo estipulado pelos coordenadores, observando-se alta freqüência dos idosos às atividades.
O homem é um ser gregário em todas as fases que antecedem a terceira idade; participa de grupos no trabalho, na família e na comunidade. Quando idoso, deixa ou tende a romper com grupos sociais dos quais participava, seja por perda do trabalho ou de entes queridos, e se isola. Portanto, o que pode ser observado é que o grupo, e não o tipo de atividade exercida, passa a ter papel importante nessa fase do desenvolvimento, o que permite ao idoso reconstruir relações através do “vínculo” com outros indivíduos da mesma idade e que apresentem uma história de vida no mesmo contexto político e histórico de uma época, o que passa a ser um facilitador da interação.
A repercussão positiva das atividades em grupo no contexto de vida do idoso é resultado unânime nos artigos revisados. A melhora no estado de saúde é consideravelmente notada, uma vez que, segundo Valla apud Assis et al. (2002), o apoio social ajuda na prevenção, manutenção e recuperação da saúde. A maior auto-estima e autopercepção são fundamentais ao autocuidado e a todas as medidas que a pessoa possa tomar para melhorar sua saúde e bem-estar no decorrer de suas atividades cotidianas.
Com base nos resultados desta revisão, pode-se observar que as reuniões aconteciam semanalmente e os grupos não obedeceram a um consenso sobre a idade mínima para a participação dos indivíduos, variando de 48 a 61 anos – embora a OMS defina idoso como a pessoa maior de 60 anos de idade. Pode-se argumentar que a maioria dos participantes era composta por mulheres na faixa de 69 anos e grau de escolaridade variando entre analfabetas a terceiro grau completo.
Borini (2002) afirma que a motivação feminina em participar das atividades de lazer é diferente da motivação masculina, uma vez que as mulheres da geração das idosas atuais exerceram um papel muito restrito ao ambiente doméstico. As mulheres que freqüentam grupos de terceira idade em sua maioria não desenvolveram atividades profissionais; ao contrário, foram donas-de-casa, mães e esposas. Dos artigos estudados, apenas no de Guarido et al. (2003) aparece uma maioria de mulheres que exerceram atividades externas como secretária, nutricionista, professora e supervisora de ensino. Embora nenhuma dessas exerça atualmente atividades profissionais, todas faziam atividades físicas e participavam de eventos socioculturais, mantendo constante contato com pessoas da mesma faixa etária e com objetivos semelhantes.
Nessa faixa etária, o sentimento de pertencer a um grupo é valioso, dadas as tendências ao afrouxamento dos vínculos sociais e o surgimento da solidão, tão comuns em decorrência da aposentadoria, independência dos filhos, viuvez, perdas afetivas, dentre outros. O grupo aparece como um meio favorecedor da socialização com conseqüentes trocas afetivas e motivações para buscar novas atividades e realizar velhos projetos (Assis et al., 2002).
De acordo com Almeida et al. (1998) e Borini (2002), ao procurarem o grupo, os idosos buscam mais uma acolhida afetiva com o encontro de pessoas e construção de novas amizades, do que propriamente a solução de suas dificuldades cotidianas. Já Assis et al. (2002) acrescentam que o vínculo é ingrediente fundamental na relação dos idosos que freqüentam o mesmo grupo. Para Borini (2002), o acolhimento, o afeto, a camaradagem e a amizade são manifestações encontradas a partir da participação no grupo. Almeida et al. (1998) relatam que o vínculo estabelecido acaba por gerar uma rede de ajuda entre os próprios participantes, como se o outro fosse da família.
Almeida et al. (1998) e Assis et al. (2002) afirmam que grande parte dos idosos que freqüentam os grupos se sente gratificada pela aprendizagem e oportunidade de acesso às informações, e menciona a validade disso para sua saúde e sua vida. O aprendizado não se restringe somente ao aspecto da informação e prevenção, mas inclui uma dimensão mais ampla, a da experiência do outro, da vivência de partilhar história de vida e, nessa troca, promover um crescimento pessoal.
Numa época em que, para muitos idosos, pensar no futuro ainda remete a cair no vazio e na falta de expectativa, o grupo surge, segundo Guarido et al. (2003), como um sentido para a vida, estabelecendo uma rotina com a participação em atividades diversificadas e com o encontro de amigos. O envolvimento no grupo devolve expectativas, perspectivas, planos e objetivos para o futuro.
Observou-se que a maioria dos artigos buscava medir a representação simbólica da participação dos idosos em grupo, visto que não somente estes, mas toda a sociedade está sendo convidada por Debert (1999), a repensar novas formas de gestão do idoso. Diante do aumento da longevidade e do contingente populacional, a atividade em grupo pode apresentar uma contribuição importante para um envelhecimento saudável.
CONCLUSÃO
Os resultados desta bibliografia comentada apontam a viabilidade e os benefícios da inclusão do idoso em grupos para a terceira idade, independentemente da atividade que é desenvolvida e de seu coordenador.
Cabe aos profissionais de saúde interessados em prevenir e minimizar os efeitos do envelhecimento criar estratégias que possibilitem a participação dos idosos em grupos de atividades e assim contribuir para a melhoria da qualidade de vida, independência, autonomia e participação. No entanto, por se tratar do indivíduo com intervenção na modalidade de grupo, tendo como recurso a atividade, sugere-se um campo fértil de atuação dos terapeutas ocupacionais.
NOTAS
¹ Alessandra de Fátima João. CREFITO 4/3044. Terapeuta Ocupacional especialista em Gerontologia UFMG.
² Ângela Andréa Zampieron Sampaio. Terapeuta Ocupacional especialista em Gerontologia, UFMG. E-mail: angzamp@uol.com.br
³ Elaine Aparecida Santiago. CREFITO 4/7088.Terapeuta Ocupacional especialista em Gerontologia UFMG.
4 Raquel de Cássia Cardoso. CREFITO 4 /5362 – Terapeuta Ocupacional especialista em Terapia Ocupacional dinâmica aplicada a neurologia / Lins SP e em Gerontologia UFMG. E-mail:cardosocraquel@ig.com.br
5 Rosangela Correa Dias Departamento de Fisioterapia-UFMG. Fisioterapeuta, mestre em ciências da reabilitação pela Queen”s University – Canadá, doutora em Ciências da Reabilitação pela Universidade Federal de São Paulo –EMP, professora adjunta do Departamento de Fisioterapia da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. E-mail: rcd@ufmg.br
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ABSTRACT
Populational ageing is one of the greatest challenges of present days. Researchers in different areas have shown interest in the elderly, especially due to the rapid growth of the Brazilian population aged over 60. The objective of this study was to review the literature related to the effects of group activities on prevention and minimization of deterioration related to ageing and on quality of life as related to autonomy, independence and participation. Libraries and electronic data bases were assessed between 1998 and 2004. According to the inclusion criteria six articles were selected and the quality of the evidence was analyzed according to the methodology suggested by Law et al. (1998). Results were compared in tables, focusing on the following issues: authors, specific objectives, sample, study design and main results. Results of this commented bibliography point to the feasibility of the intervention performed with elderly individuals in the context of group activities, enabling the involvement of occupational therapists and other professionals interested in working with groups of aged individuals.
KEYWORDS: Demographic Aging; Aged; Quality of Life; Personal Autonomy; Outcome Assessment (Health Care); Bibliography; Databases, Bibliographic
Recebido para publicação em: 24/05/2005
Aprovado em: 02/09/2005
Correspondência para:
Raquel de Cássia Cardoso
E-mail: cardosocraquel@ig.com.br
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