| | Textos Envelhecimento v.8 n.3 Rio de Janeiro 2005
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Alimentação, saúde e cultura: algumas reflexões sobre uma experiência com narrativas de idosos
Nourishment, health and culture: reflections on an experience with elderly’s narratives
Shirley Donizete Prado¹
Maria Fátima Garcia de Menezes²
Luciana Maria Cerqueira Castro³
Débora Martins dos Santos4
Elda Lima Tavares5
Silvia Ângela Gugelmin6
RESUMO
Este trabalho é parte do Projeto Nutrição e Terceira Idade, desenvolvido pelo Instituto de Nutrição da UERJ. Através da Oficina de Produção de Textos realizada na Universidade Aberta da Terceira Idade, na UERJ, discutimos transformações que vêm ocorrendo no campo da alimentação e suas implicações sobre a saúde, ao longo dos últimos cem anos. Trabalhamos a partir de narrativas de pessoas idosas, que atualmente moram no Rio de Janeiro. Entendemos, como Paul Ricoeur, a adequação das narrativas para a realização de estudos sobre o passado, como um meio de simbolizar eventos sem o qual sua historicidade não poderia ser indicada. A trama central é abordada através de alguns caminhos mais específicos da alimentação. Concluímos, de acordo com Claude Fischler, que essas transformações no campo da alimentação estão gerando ansiedades que se acentuam com o monitoramento permanente do corpo, mais acentuado nas pessoas idosas, submetidas a maiores riscos à saúde. Ter em conta aspectos como cultura alimentar, em seus elementos formadores de identidades, é um eixo indispensável nas práticas em saúde.
PALAVRAS-CHAVE: Alimentação; Hábitos Alimentares; Narração; Saúde; Idoso; Rio de Janeiro
INTRODUÇÃO: SOBRE O PROJETO NUTRIÇÃO E TERCEIRA IDADE
O Projeto Nutrição e Terceira Idade (PNTI) foi criado em 1993, numa parceria entre o Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição e a Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI), ambas unidades acadêmicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A UnATI é hoje um Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde – estruturado como núcleo de estudos, debates, centro de convivência e assistência à população idosa – que, ao longo dos anos, vem ganhando expressão pela qualidade dos serviços oferecidos, em face de demandas emergentes derivadas do recente processo de envelhecimento populacional brasileiro (Kalache, 1987; Universidade, 1999; Veras, 1994).
No PNTI, desde sua criação, desenvolvemos diferentes atividades com indivíduos de 60 anos e mais. Nossos usuários apresentam perfil sociodemográfico semelhante ao da população idosa do Município do Rio de Janeiro (IBGE, 2002). São, em sua maioria, mulheres, aposentadas e/ou pensionistas. O estado civil predominante é o de viúvas, mas observamos percentuais importantes de solteiras e descasadas. Diferentemente da população do Rio de Janeiro, os idosos assistidos residem em domicílios unipessoais, característica que pode favorecer o isolamento social, situação reconhecida como de risco frente às questões de saúde e nutrição (Veras, 1994). A média de escolaridade é superior à média nacional. Residem, em sua maioria, em bairros próximos à UERJ (Sant´Anna, 1999).
A trajetória do Projeto traz as marcas de parceiros que conquistamos e que, em muito, vêm enriquecendo o trabalho: (a) alunos do curso de graduação em Nutrição; (b) bolsistas de extensão e de estágio interno complementar; (c) graduandos estagiários; (d) graduandos voluntários; (e) residentes de diversas áreas de formação; (f) profissionais e docentes oriundos de várias unidades acadêmicas da UERJ e de outras instituições; e (g) idosos participantes das atividades.
Realizamos ações de ensino para a graduação: um espaço importante na formação de futuros profissionais da área de Nutrição, através de aulas práticas de diferentes disciplinas e como campo de estágio da área de Nutrição em Saúde Coletiva. No plano da pós-graduação, atuamos na qualificação de especialistas em Geriatria e Gerontologia (Prado, no prelo a; Prado, no prelo b; Santos, no prelo; Tavares, no prelo; Menezes, no prelo).
No espaço da pesquisa, o PNTI vem possibilitando a realização de pesquisas enfocando estudos antropométricos e de consumo alimentar dos idosos (Menezes et al., 2004, Santos et al., 2003), bem como a compreensão das relações que estabelecem com o alimento no seu cotidiano, buscando o desenvolvimento de reflexões acerca de concepções sobre alimentação saudável (Menezes e Santos, 2003) e sobre as transformações que vêm ocorrendo no campo da cultura alimentar na modernidade brasileira e suas implicações sobre o processo saúde e doença (Prado et al., 2005a).
No que se refere à extensão, oferecemos serviços e assistência em nutrição – consultas individuais e personalizadas, cursos e promoção de eventos para idosos, seus familiares e cuidadores, além de cursos para profissionais. Por desdobramento, temos contribuído com publicações voltadas para a temática da nutrição e seu papel em busca de um envelhecimento mais saudável (Prado, Tavares e Veggi, 1999; Pacheco e Menezes, 2002; Prado e Tavares, 2004) e para o desenvolvimento de reflexões sobre inter-relações entre extensão, ensino e pesquisa (Prado, et al., 2005b).
Ao longo dos anos, participamos de várias das iniciativas interdisciplinares promovidas na UnATI. Uma delas correspondeu à nossa atuação na Oficina de Produção de Textos, atividade desenvolvida de 1995 a 2002, tendo à frente a socióloga Mabel Imbassahy7 e até dez idosos por semestre. Contando com a ativa presença de pessoas dotadas de habilidades especiais para a produção literária, concluíram um conjunto de textos, abordando temas diversos, que resultou na publicação das coletâneas intituladas Mil novecentos e antigamente... (Imbassahy, 2001) e Sabores & Lembranças: narrativas sobre alimentação, saúde e cultura (Imbassahy , no prelo). Em 2000, a convite da coordenação, iniciamos a Oficina de Produção de Textos “Memória e Alimentação”.
O presente trabalho tem por objetivo relatar experiências que vivenciamos nessa Oficina e apresentar algumas reflexões sobre os conteúdos dos textos gerados. Mais especificamente, buscamos discutir alguns aspectos relativos às transformações ocorridas no campo da cultura e da alimentação no último século, no que se refere a sentimentos de ansiedade diante dos riscos para a saúde de pessoas idosas que são identificados nas práticas alimentares atuais.
OFICINA DE PRODUÇÃO DE TEXTOS “MEMÓRIA E ALIMENTAÇÃO”
Incorporamo-nos à Oficina de Produção de Textos com a proposta de trabalhar o tema “Memória e Alimentação”. A socióloga Mabel Imbassahy, em sua ampla experiência nesse tipo de atividade, recebeu-nos com entusiasmo. Passamos a participar da coordenação da Oficina, em cujos encontros contamos com a presença constante de alunas estagiárias do curso de graduação em Nutrição da UERJ.
A partir de março de 2000, passamos a realizar encontros semanais e/ou quinzenais. Em uma manhã definíamos a temática a ser trabalhada, tendo a alimentação no curso da vida como fio condutor. Depois conversávamos livremente, a partir de situações narradas pelos idosos, acontecimentos vividos por eles mesmos ou por seus antepassados, parentes, amigos, conhecidos. Nós, da equipe do PNTI, prestamos muitos esclarecimentos relativos a aspectos nutricionais de alimentos e da fisiopatologia humana, freqüentemente solicitados.
Finalizávamos cada encontro com referências acerca do texto a ser produzido. No encontro seguinte, as narrativas eram lidas e debatidas, tanto em relação ao seu conteúdo cultural, seus componentes de saúde, de doença e de nutrição, a marcadores de identidade individual e grupal, quanto a seus aspectos gramaticais, de estilo, de estruturação – enfim, da produção textual propriamente dita. E assim, percorremos a vida dos idosos, de suas primeiras lembranças aos dias atuais.
Foi assim que enveredamos pelos caminhos de suas memórias e reminiscências, suas histórias de vida, tendo a alimentação como referência central – em outras palavras, sua cultura alimentar, abarcando a vida doméstica, os laços de família, as festas e comemorações, o acesso aos alimentos, seu preparo e formas de consumo; práticas, rituais e crenças; saúde e doença.
Quanto aos participantes da Oficina, são pessoas com idades entre 60 e 80 anos, moradoras da cidade do Rio de Janeiro, com particular interesse em escrever e que parecem ter encontrado, na Oficina, possibilidades de realização pessoal, de encontro consigo mesmos, através da narrativa. Sofia, Helena, Áurea e Luiz são nomes fictícios que utilizamos neste artigo.
Sofia é mineira, de família numerosa, nascida em uma fazenda, e hoje reside somente com uma irmã no bairro carioca do Rio Comprido. Adolescente, se propôs a seguir a vida religiosa, o que fez por 27 anos. Depois, deu aulas de português e francês e, desde então, se dedica a escrever com cuidado extremo, exigindo de si mesma fidelidade à língua portuguesa, da qual é admiradora e discípula.
Helena é carioca do Estácio. Nasceu no Morro de São Carlos, quando os subúrbios do Rio de Janeiro ainda guardavam semelhanças significativas com a vida rural – com seus sítios, engenhos e morros, onde a filha do garçom convivia com coelhos, galinhas, pintinhos e colhia verduras fresquinhas da horta; acompanhava os pregões, as feiras e o desenvolvimento do comércio urbano, que foi se seguindo. Enfrentado limitações importantes, estudou e se formou em Contabilidade. Demonstra antiga vocação para escrever, sendo autora de um livro e, assim como Sofia, de textos livres em coletâneas publicadas. Páginas e páginas parecem pouco para que Sofia e Helena possam nos conduzir pelas cozinhas, quintais, hortas, pomares, na lida doméstica cotidiana, quase o tempo todo ao lado da mãe, da irmã, da mucama, da vizinha, da avó, das mulheres.
Áurea e Luiz formam um belo casal, cuja felicidade transparece em cada gesto, em cada olhar, nos largos sorrisos, nas dificuldades que enfrentam juntos. Nascidos ambos na cidade do Rio de Janeiro, encontram-se hoje aposentados – ela da vida de secretária e ele de servidor púbico – e dedicados à reconstrução da história do bairro do Méier por meio de imagens e textos. Trazem-nos referenciais da cidade: mencionam, com freqüência, lojas tradicionais do Centro do Rio. A crescente urbanização aparece de forma intensa nas palavras de nosso casal de narradores, através de marcantes distinções em formas de produzir e consumir alimentos quando comparadas às palavras de Sofia e de Helena.
A partir dos textos que compõem este artigo, procedemos a algumas reflexões preliminares acerca das narrativas que o integram. Esse estudo é vinculado à Linha de Pesquisa “Educação, Saúde e Nutrição”, do Grupo de Pesquisa “Nutrição e Saúde Coletiva”, cadastrado no CNPq.
RISCO E ANSIEDADE: UM SÉCULO DE TRANSFORMAÇÕES NA CULTURA ALIMENTAR NO BRASIL
Discutimos aqui alguns aspectos relativos a transformações ocorridas no campo da alimentação ao longo dos últimos cem anos. Mais especificamente, buscamos discutir aqueles relativos a intensos e freqüentes sentimentos de ansiedade, de angústia diante de riscos para a saúde de pessoas idosas; indivíduos que recebem um conjunto significativo de prescrições e cujos corpos são sistematicamente monitorados, em virtude das doenças crônicas e do envelhecimento – características que marcam o perfil epidemiológico e demográfico da população brasileira nas últimas décadas. Mais adiante, em novo trabalho, trataremos de ampliar e aprofundar outras questões presentes nas complexas problemáticas que esse precioso livro de narrativas nos coloca.
O início das atividades do grupo trouxe-nos a seguinte fala de Sofia:
“Sinceramente, quando ouvi a proposta, achei que seria chato escrever sobre comida. Mesmo assim, comecei. E me vi tomada por uma grande alegria, por uma intensa motivação. Vocês não imaginam como está sendo bom recordar e escrever sobre essas lembranças! Parece que estou reunindo pedaços de minha vida.”
Nossos encontros foram riquíssimos em lembranças e trocas, em emoções, no estabelecimento de novos laços afetivos e na reafirmação de vínculos anteriores. A quantidade de páginas e a qualidade dos conteúdos revelam o interesse que a proposta despertou. Mais que relatos factuais, as páginas e páginas produzidas na Oficina parecem trazer uma certa forma de reconstrução dessas vidas, de reunião de certos pedaços quase perdidos ou desarrumados. Pollak (1989) nos chama atenção para o papel da memória como instrumento de reconstrução de identidade e não apenas como relatos de fatos isolados. O autor considera que:
“[...] ao contarmos nossa vida, em geral, tentamos estabelecer uma certa coerência por meio de laços lógicos entre acontecimentos-chave [...] e de uma continuidade, resultante da ordenação cronológica. Através desse trabalho de reconstrução de si mesmo, o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros.” (Pollak ,1989, p. 12-13).
A alimentação – assim como a língua – é elemento essencial na constituição das identidades. Gilberto Freyre (1945), quando trata da formação da família brasileira sob o que denomina regime de economia patriarcal, nos diz:
“Todo brasileiro, mesmo alvo, traz na alma, quando não na alma e no corpo [...] a sombra, ou pelo menos a pinta do indígena ou do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. [...] Na ternura, na mímica, [...] na música, no andar, na fala [...]. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida [...].” (Freyre, 1945, p. 399).
Roberto DaMatta (1993), em ensaio sobre a saudade, nos fala da identidade dos povos, da identidade do brasileiro, deixando claras indicações do quão importante é o papel da alimentação na sua constituição:
“No fundo desejo realizar uma antropologia que mostre a sociedade não apenas como sistema econômico ou político, mas como uma totalidade complexa que às vezes se revela por inteiro: iluminada e reflexivamente. E a saudade é uma categoria mestra em promover esses momentos que surgem quando falamos: ‘que saudade do Brasil!’; ‘que saudade dessa instigadora bagunça brasileira!’; ‘que saudade de falar aquela língua que é como o ar que eu respiro e de comer aquela comida que, além de me nutrir, traz à tona gostos e cheiros que estão enfurnados dentro do meu ser!’; ‘que saudade daquelas pessoas que tanto amei e ainda amo, mas cuja perda devo (e quero) renovar pela saudade, porque é isso que constitui a minha biografia no sentido mais concreto e mais dramático do termo: aquele que diz que a vida é mesmo uma passagem e que todos (re)vivemos (re)fazendo – saudosa e pacientemente – memórias.” (Damatta ,1993, p. 17).
Memórias, lembranças, saudades de comidas, de eventos, de sentimentos, de coisas passadas que, ao serem recompostos por meio de narrativas, (re)colocam, hoje, a dinâmica de construção e reconstrução de identidades.
Entendemos, como em Paul Ricoeur (1983), a adequação das narrativas para a realização de estudos sobre o passado como um meio de simbolizar eventos sem o qual sua historicidade não poderia ser indicada (White, 1991). Em Darnton (1988) encontramos uma abordagem que consideramos exemplar sobre o uso de narrativas na compreensão de passagens da história da cultura francesa e que tomamos como referência neste trabalho. Nos textos produzidos pelos idosos da UnATI estão presentes processos de transformações relativos a aspectos econômicos, urbanização, gênero, padrões de comportamento, desenvolvimento científico e práticas em saúde correspondendo a fios de uma complexa trama, sem o que o enredo principal, a cena dramática das transformações ocorridas na alimentação ao longo do século XX torna-se frágil e desprovida de contexto social. A trama central é aqui abordada através de alguns caminhos mais específicos das práticas alimentares.
Primeiramente, a grande transformação ocorrida nas formas de produção dos alimentos: na infância, sobretudo doméstica e voltada para família, com fortes vínculos entre as pessoas e a comida; e hoje as compras no supermercado e os crescentes desconhecimentos e inseguranças face ao que se come. Nos textos de Helena, detalhes sobre vida de criança nos subúrbios do Rio de Janeiro e a alimentação das aves, as doenças, a postura dos ovos, o cacarejo característico e o abrir de asas anunciando a breve chegada dos novos pintinhos, as orações para que não houvesse temporais que pudessem prejudicar a ninhada, a ajuda prestada aos recém-chegados, “retirando os pedacinhos de casca a fim de libertá-los...”, a curiosidade e a admiração diante daquele processo de vida e da sua própria vida: “Hoje, ao recordar-me com saudade daquele tempo, creio que eu sentia um pouco de inveja daquelas asas protetoras”. E, depois, as delícias. “Duas vezes por mês, sempre aos domingos ou feriados, meu pai fazia aquele almoço... Matava a galinha mais gorda. Aproveitava tudo, até as tripas”. Encontramos essa forte tônica em aspectos que nos remetem ao afeto, absolutamente alienado do alimento preparado em série nas indústrias e vendido no supermercado de forma tão impessoal. Mais adiante Helena comenta: “Hoje, eu com 74 anos, encontro-me comendo galinha congelada, totalmente sem peles, sem gordura”. Em Áurea também encontramos referências a essas questões: “Minha mãe fazia uma sopa consistente. Na época eu fazia charminho para comer”. Mais adiante, nossa narradora registra: “Atualmente, no corre-corre diário da mulher no mercado de trabalho, a sopa que era feita em casa foi substituída por produtos similares industrializados. Hoje tenho saudades de ambas: sopa e mamãe”.
No contexto dessas transformações, as mudanças na vida da mulher e no interior da cozinha, ou confortos e medos diante da tecnologia. Nas palavras de Sofia:
“[...] voltando à fazenda: papinha fresca, preparada no dia, quase na hora. Não era como os copinhos de hoje, com as “alertadoras” datas: fabricado dia tal, vencimento, tal dia. [...] As papinhas atuais, dizem vir balanceadas: proteínas, sais minerais, vitaminas... do potinho para o forninho de microondas. Podemos confiar? Não sei, pode até ser...”
Essas narrativas nos colocam diante das intensas transformações ocorridas para os que viveram da produção da terra ou que dela tiraram algo para seu sustento, como Sofia e Helena. Rodrigues (1999), estudando o deslocamento de sitiantes paulistas para regiões urbanas, remete-nos às suas rememorações do trabalho árduo e difícil do campo, mas que trazia satisfações e, sobretudo, comida farta. Pondera que a mudança para as sedes municipais inaugura uma nova vida, onde somente o dinheiro é capaz de colocar alimentos na mesa. Nessa nova vida, falar de comida é falar do sítio que perdeu, onde a família realizava um trabalho que conferia posição honrada no contexto social tradicional. Cândido (1979), analisando as transformações nos meios de vida do caipira paulista, identifica esse fenômeno como uma caracterização ideal do passado ou uma utopia retrospectiva. Em nossas narradoras, podemos considerar que, em algum grau, encontramos tais perspectivas.
A evocação do passado idealizado talvez esteja trazendo consigo o sentido de uma condição presente: a reivindicação dos conteúdos desse passado como a vida em família, a abundância (ao menos de alguns alimentos), a qualidade dos vegetais fresquinhos colhidos na hora, do peixe pescado no dia, do sabor da jabuticaba, que já não mais se realiza no frango congelado, sem gordura e sem pele, que jamais propiciará o sabor da canja gorda preparada com a galinha criada junto das crianças, morta pelas mãos do pai e preparada, afetuosamente, pela mãe; expressões de vida.
Essas passagens parecem indicar que havia no passado uma certa sensação de segurança, de conforto e que hoje parece se desvanecer. Em seu lugar, dúvidas, perguntas – sem respostas ou com respostas demais, contraditórias às vezes – convivem com sabores e aparências atraentes, com a praticidade no preparo dos alimentos e com um tempo que corre, que voa. Fischler (1995) aborda a questão, trazendo-nos reflexões sobre nossa ancestralidade mais remota: o medo dos alimentos desconhecidos e perigosos, marcante na constituição de nossa humanidade, de nossa identidade, manifestando-se nos dias de hoje diante de alimentos sobre os quais sabemos cada vez menos e diante dos quais vemos crescer sentimentos de insegurança e temor.
“El comensal moderno, literalmente, não sabe o que come. Sus puntos de referencia y sus criterios más fundamentales se hallan confundidos, engañados, deformados. Su creciente conciencia sobre la manipulaciones que sufren los alimentos ha demolido su confianza; así, degusta los alimentos más usuales con la ansiedad, la reticencia que manifestaría frente a una cocina desconocida. Es como si fuera víctima del viejo fantasma de ‘la incorporación del objeto peligroso’ [...].” (Fischler, 1995, p. 371).
Nossos narradores falam dos alimentos na infância como próximos e conhecidos; é o caso dos pintinhos acompanhados desde o nascimento, sua criação, sua alimentação, seu preparo e seu consumo – entre outras passagens similares. Fischler nos diz da inexistência de vínculos de pertencimento entre o comensal consumidor-puro e seus alimentos, e da sobrecarga que essas novas inseguranças representam para o indivíduo; essa pessoa que necessita decidir, várias vezes por dia, o que comer e que vê repetir incessantemente, dentro de si, as dúvidas, perguntas, informações favoráveis ou ameaçadoras sobre cada um dos alimentos, no momento da compra, do preparo, da ingestão, da consulta com os profissionais de saúde, a todo instante. E, ao não reconhecer com segurança os alimentos que incorpora, termina por não se reconhecer a si mesmo.
“Los alimentos que incorporamos nos incorporan a su vez al mundo, nos sitúan en el universo: identificando mal los alimentos que absorbe, el comensal tiene cada vez más dudas sobre su propia identidad.” (Fischler, 1995, p. 375).
Também aparecem nas narrativas freqüentes menções às transformações nos padrões, que vão da família numerosa ao redor da mesa à alimentação individualizada, na qual muitas vezes comer na solidão é a referência. Fischler também discute a questão do tempo na alimentação – na modernidade, cada vez mais marcada pelo ritmo do trabalho, que termina por impor um incessante beliscar em substituição à alimentação estruturada. Ou seja, uma certa regressão ao que denomina “alimentação vagabunda”, similar à do ancestral coletor, que caminhava e comia o que encontrava, solitário, sem rituais, sem símbolos.
Para os idosos, viver só é indicação de risco em termos de saúde e nutrição. Ainda mais se afastados de suas práticas alimentares identificadoras, submetidos a angústias e inseguranças constantes diante de uma comida “desconhecida”, beliscando aqui e ali, eventualmente portadores de depressão – como alguns de nossos narradores ou de elevada parcela da população de alguns bairros cariocas, como nos mostra o estudo de Veras (1994). Aqui, o trabalho não é exatamente o que leva a comer de forma não-estruturada. A solidão, a falta de estímulo para “cozinhar para alguém” – predominantemente presente nas mulheres viúvas, solteiras ou descasadas – tem aparecido como elemento que conduz ao afastamento dessas práticas alimentares, que correspondem a verdadeiros rituais – como se vê nas palavras de Sofia, “Mesa do jantar: sacrossanto altar” – e a um crescente número de contatos com alimentos ao longo do dia, que temos identificado em nossas práticas ambulatoriais e em estudos de consumo alimentar empreendidos no PNTI (2004). Essa menção saudosa, e mesmo melancólica, a refeições regulares, toalhas de mesa, família reunida todos os dias presentes com freqüência nas nossas narrativas não seria, em algum grau, uma manifestação de insatisfação dos idosos com esse moderno padrão de alimentação, essa anomia – para utilizar o conceito que Fischler toma de Durkheim para caracterizar uma crise atual dos critérios de escolha, dos códigos e dos valores, da simbologia relacionada à alimentação, da desagregação da comensalidade – e, ao mesmo tempo, uma indicação do quão necessário é valorizar essas memórias, esse passado, essas práticas alimentares, essas identidades como forma de promoção de vida saudável na velhice dos dias de hoje?
E, finalmente, as transformações no sentido da alimentação. No passado, o comer à vontade, matar a fome com o prazer em saborear o alimento disponível. Sofia nos conta:
“Na época da jabuticaba era um “Deus nos Acuda”. Trepávamos no pé escorregadio de tronco grosso, mas de galhos finos e quebradiços, salpicados de frutos pretinhos e agarrados árvore. A colheita era consumida ali mesmo: troc, troc, troc, com semente e tudo. No dia seguinte, o trabalho que dávamos não está no gibi: ao visitarmos o “water-closed”, sofríamos e até chorávamos – não conseguíamos realizar a tarefa tão salutar. Naquele tempo, só mesmo “Óleo de Rícino” ou “Sal de Glauber”, a que tínhamos horror. E o pior era ficar em jejum até que o problema fosse resolvido. Então mamãe, filha de boticário e meio inclinada a médico, aplicava em nós “Clister” e era bater e valer.”
“No outro dia, lá estávamos nós na jabuticabeira, saboreando aqueles frutos docinhos, de casca fina, mas de semente grande, que engolíamos de uma só vez. Depois de colhidas, essas frutas não podem ser guardadas por muito tempo: perdem o sabor; naturalmente, por esta razão, elas não são comercializadas. É raríssimo a gente encontrar num hortifruti ou num supermercado jabuticabas para vender.”
Na atualidade, a nutrição – do comer com equilíbrio, moderamente, da alimentação tecnicamente normatizada, seguindo prescrições dietoterápicas.
“Na nossa dieta – de minha irmã e minha – entra a água de coco verde. Dizem que a água de coco contém potássio, um santo remédio para câimbra. Sei que, em alguns lugares já estão vendendo água de coco em garrafinhas, mas... a gente tem receio. Meu médico diz-me sempre: “No mínimo dois litros de água por dia”. E eu: “Sim, senhor”. Mas não chego a esvaziar a garrafinha de um quarto de litro, que coloco perto de mim, quando estou trabalhando. Somos tão descuidadas nesse ponto; minha nutricionista prescreveu-me tomar no mínimo 2 litros de água por dia e eu, que me esforço tanto para isso, não chego a tomar meio litro. Acho o gosto da água ruim e misturo a ela um pouco de água mineral com gás, mas assim mesmo tenho dificuldade em tomá-la. Invejo as pessoas que reviram um copo duplo de uma só vez. Uma de minhas amigas já me perguntou por que eu bebo só três ou quatro golinhos. Eu não havia reparado nisto, tentei ingerir um pouco mais e... Uma forte dor no estômago maltratou-me durante alguns minutos. Louvado seja! (Sofia).”
Em outra passagem:
“Sempre gostei de arroz branco; me sirvo diariamente dessa iguaria; mas dizem que não tem nada. Agora, aos setenta e seis anos de idade, tinha vontade de mudar o meu costume – usar arroz integral, rico em fibras. Cheguei a tentar, mas não gostei. Pensei comigo mesma: será que nesta idade vai adiantar alguma coisa, vai melhorar minha saúde que não é nada animadora?” (Sofia).
Essas passagens parecem nos dizer de buscas ou tentativas de encontro entre a pessoa idosa com um novo referencial de alimentação. Informações nutricionais que vão sendo incorporadas – ou não – e que, de algum modo, afetam as práticas alimentares.
Garcia (2000), em texto com um título bastante instigante – A culinária subvertida pela ordem terapêutica: um modo de se relacionar com a comida, parte da ciência contemporânea, mais especificamente, da epidemiologia nutricional voltada para as doenças características da civilização ocidental (câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose e, registremos, marcantes nos idosos) para nos dizer de um conceito de alimentação saudável pautado pelas características químicas dos alimentos.
“Para a ciência, a qualidade da alimentação se dá por seus atributos nutricionais, quer seja para orientar o que deve ser restringido ou pelo que deve ser aumentado, em função das doenças de destaque no panorama das estatísticas de saúde.” (Garcia, 2000, p. 13).
Aqui há menos antigos prazeres, afetos, rituais, seguranças diante da comida conhecida. Em seu lugar, a expansão da razão na escolha de alimentos a partir de seus nutrientes e de sua funcionalidade, de seu caráter medicamentoso diante de doenças por vir, instaladas ou a se agravar; a regressão da comensalidade e as conseqüentes brechas que se abrem a reorganizações não necessariamente favoráveis das práticas alimentares, com a substituição da rotina e dos procedimentos previsíveis relacionados com a comida estruturada por lanches e “beliscos”, que ocorre no Brasil simultaneamente ao aumento do consumo de alimentos industrializados fortemente relacionados com as doenças presentes na velhice; a crescente angústia em face dos corantes, conservantes, agrotóxicos, transgênicos (Menasche, 2003), microondas, irradiações – enfim do desconhecimento dos alimentos, agora ameaçadores, em algum grau.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essas narrativas parecem confirmar as reflexões que encontramos em Garcia e em Claude Fischler. As transformações no campo da alimentação, com implicações sobre a cultura alimentar, estão gerando ansiedades que se acentuam com o monitoramento permanente do corpo, mais intenso nas pessoas idosas, submetidas a maiores riscos à saúde. O encontro terapêutico entre profissional de saúde e paciente deve ter em conta aspectos como cultura alimentar, em seus elementos formadores de identidades, correspondendo a eixo indispensável nas práticas em saúde. As palavras de Sofia atestam a fragilidade desse encontro:
“E um motorista, levando-me certa vez, ao Hospital Pedro Ernesto: ‘Olhe só.’ – apontou para um grupo de médicos – ‘Lá vão para a churrascaria. O prato de hoje é feijoada. Aquela bem incrementada. Para a gente, receitam legumes cozidos’. Assim, até eu.”
Devemos ainda considerar que muito das determinações dos agravos à saúde características da velhice se encontra em planos que independem do indivíduo: como o estresse da vida urbana, violência, dificuldades com processos de aposentadorias, perdas de pessoas próximas e queridas. Mas as modalidades preventivas ou terapêuticas tidas como viáveis para o enfrentamento desses agravos recaem invariavelmente sobre a ação individual. Isso nos leva a pensar em mais um fator de sobrecarga: a responsabilidade de resolução do problema ou a culpa em caso de impossibilidade de sua implementação a contento.
Em síntese: nossas narrativas parecem ir ao encontro das teses relativas a manifestações de angústia, de ansiedade fundamentais do ser humano moderno que revive, em forma atualizada, o “paradoxo do omnívoro” situado entre a neofobia e a neofilia alimentares. “Livre de rituais eventualmente indesejados ou saudoso das práticas alimentares da infância e da juventude, o idoso se vê, com a modernidade, diante de uma nova liberdade” (Giddens, 1993) trazida pela praticidade anunciada e muitas vezes comprovada, mas também vivenciando novas inseguranças em face da hiperespecialização, da hiperhomogeneização e da preocupação com higiene e com a pureza dos alimentos. Mais ou menos preocupado, tenso e mesmo culpado, pois sua saúde está, em grande parte, colocada sob sua única e exclusiva responsabilidade: comer corretamente de acordo com as características que têm os alimentos para tratar das doenças.
“Como a couve-flor, a vagem contém vitaminas e minerais. As fibras dessas hortaliças ajudam também ao bom funcionamento do intestino. – ‘Faça do alimento o seu medicamento’. Diz uma médica.” (Sofia)
A Oficina de Produção de Textos “Memória e Alimentação” colocou-nos diante do desafio anunciado por Garcia: atender às legítimas demandas por informações sólidas sobre alimentos, saúde e doenças, valorizando a cultura que é parte essencial da identidade desses idosos. Eles nasceram num mundo praticamente medieval e em meio a outros rituais e simbolismos em termos de produção de alimentos, e hoje se encontram em plena realização da modernidade individualizada, consumista. Idosos desejosos de viver mais e melhor. Idosos que oscilam entre a vivacidade e a depressão. Idosos que não querem e não podem ser negados em sua cultura.
“Como já disse, estou ligadona na temática ‘alimentação’, sua história principalmente no Brasil, seu valor, sua eficácia.” (Sofia).
“Como será no futuro o regime alimentar das pessoas? A modernidade está aí e a cabeça do ser humano é inesgotável quando procura descobrir algo em prol da humanidade, mesmo que, para isso, às vezes resulte no sacrifício de seres humanos.” (Luiz).
NOTAS
¹Shirley Donizete Prado. Nutricionista, vice-diretora e professora adjunta do Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), participante da equipe do Projeto Nutrição e Terceira Idade. Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz; doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ.
² Maria Fátima Garcia de Menezes. Nutricionista, professora assistente do Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição da UERJ; participante da equipe do Projeto Nutrição e Terceira Idade. Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da UERJ.
³ Luciana Maria Cerqueira Castro. Nutricionista, professora adjunta do Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição da UERJ. Mestre em Saúde Publica pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro, na Universidade Federal do Rio de Janeiro; doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
4 Débora Martins dos Santos. Nutricionista, professora assistente do Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição da UERJ; coordenadora do Projeto Nutrição e Terceira Idade. Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social - UERJ.
5 Elda Lima Tavares. Nutricionista, professora assistente do Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição da UERJ, participante da equipe do Projeto Nutrição e Terceira Idade. Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz.
6 Silvia Ângela Gugelmin. Nutricionista, professora adjunta do Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição da UERJ. Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz.
7 Seu trabalho pioneiro na Oficina de Produção de Textos desenvolvida na UnATI-UERJ voltou-se, inicialmente, para pacientes em processo de alta após tratamento de doenças complexas, como a depressão, por exemplo. Orientando para a geração de pequenos trechos escritos individualmente e discutidos em grupo, Mabel tratava da gramática, da qualidade da redação, das dores e das alegrias passadas e futuras das pessoas ali presentes. Daí foi publicado, no ano de 2001, o primeiro livro da Série Textos & Memórias, que recebeu o delicado título Mil Novecentos e Antigamente... Uma realização de vida para os autores! Um presente para o leitor, que pode aí encontrar imagens singelas e ao mesmo tempo vigorosas do cotidiano de seres humanos que se colocaram frente a fadas e monstros, ora com toda a sua força, ora apenas com o possível.
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ABSTRACT
This paper is part of the Nutrition and the Elderly Project, developed by UERJ’s Nutrition Institute. Through the Workshop for Texts Production, carried out by the Open University for Studies on the Elderly, at UERJ, we reflect on the transformations in the field of nourishment and their implications for health, over the past century. We analyzed personal narratives of elderly people who live in Rio de Janeiro. In accordance with Paul Ricoeur, we believe that narratives are adequate for studies about the past, as a form of symbolizing events without which its historicity would not be evinced. The central plot is approached through some specific ways of nourishment. According to Claude Fischler, we conclude that transformations in the field of nourishment are creating anxieties which get worse with the constant control over the body, mainly among the elderly, whose health is more at risk. It is indispensable, for health practices, to consider aspects such as alimentary culture among the elements which form identities.
KEY WORDS: Feeding; Food Habits; Narration; Health; Aged; Rio de Janeiro
Recebido para publicação em: 22/8/2005
Aprovado em: 24/10/2005
Correspondência para:
Shirley Donizete Prado
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Centro Biomédico
Instituto de Nutrição - Departamento de Nutrição Social
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