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Creation Workshop for the Elderly Thais de Azambuja*
Resumo A terceira idade é uma etapa natural da vida com características próprias, na qual ainda há possibilidades de mudanças e realização pessoal. Facilitada por maior disponibilidade de tempo e liberdade, pode ser um período interessante de descobertas e renovação. A Oficina de Criação para a Terceira Idade teve início em 1993, e visa a resgatar e expandir potencialidades criadoras, através de atividades e produções artísticas. O exercício da criação leva aos idosos novos interesses e perspectivas de vida, concorrendo para melhorar a saúde e qualidade de vida.
Introdução A partir de experiências profissionais, informações e reflexões a respeito da arte, da velhice e da vida, iniciamos na UnATI/UERJ um projeto voltado à terceira idade: a Oficina da Expressão Através da Arte, hoje intitulada Oficina de Criação. A terceira idade é uma etapa natural da vida com características próprias, na qual ainda há possibilidades de mudanças e realização pessoal. Facilitada pela maior disponibilidade de tempo e liberdade, pode ser um período interessante de descobertas e renovação da existência. Nossa proposta é despertar e expandir potencialidades criadoras nos idosos, como uma forma de superar conseqüências de um isolamento social e falta de perspectivas para o futuro. Nesse contexto, estabelecemos a oficina com o intuito de abrir oportunidades para a auto-realização, auxiliando os idosos a resgatar e dar forma a possíveis capacidades até então adormecidas. Pretende-se, com atividades artísticas, estimular a criatividade e sua expressão em obras e na vida. O que é a criatividade?
Já na Grécia antiga, Platão considerava a criatividade inspiração divina; outra tradição que remonta à Antigüidade, a concebe como uma forma de loucura; e na Renascença, como genialidade. Esses conceitos enfatizavam a literatura e poesia.
A idéia sobre a criatividade de alguns dos nossos grandes pensadores do século XX:
Segundo a Teoria da Evolução, de Darwin, a criatividade seria uma manifestação da força criadora inerente à vida. Do ponto de vista dessa teoria, os impulsos criativos são impulsos de inovação e ordenação que se manifestam em todas áreas da vida, e que provêm do instinto exploratório comum a todos os seres vivos. É um instinto biológico, tão básico como o sexo e a fome, pois é uma reação inerente aos desafios naturais que ajudam na sobrevivência da espécie. No homem, por sua consciência e inteligência, os impulsos criativos envolvem também a conservação da vitalidade psíquica, que se caracteriza dinamicamente pelos intercâmbios com o meio ambiente. A criatividade é um potencial; a criação, o produto. Criar é dar forma algo novo e não se refere somente à produção artística, mas também como um agir integrado ao viver; e, se o homem cria, não é apenas porque quer ou gosta, e sim porque precisa. A criatividade humana envolve a capacidade de inovar respostas frente a desafios, quer seja no cotidiano com novas idéias e ações, ou em produções nas artes, ciências e tecnologias diversas. O ato criador não se faz a partir do nada; ele relaciona pensamentos, fatos, estruturas de percepção e contextos associativos já existentes, mas até então separados, para que juntos estabeleçam a resposta inovadora. A originalidade é a característica mais ampla de personalidades criadoras, pois engloba diferentes capacidades, como a de produzir idéias raras, resolver problemas de maneiras incomuns, usar objetos e situações de modo não costumeiro, gerando assim novas possibilidades diante de desafios. A expressão artística O fazer artístico não é uma forma de relaxamento e lazer, nem uma substituição da realidade; é, sim, uma ampliação de nossa vitalidade interior. Criar representa uma intensificação de vida. A capacidade de renovação e mudanças, inerente à criatividade humana, necessita de condições reais para seu exercício e concretização; se frustrada em suas possibilidades, gera repetição e decadência. Quando existem no indivíduo determinados potenciais latentes, há motivações constantes para exercê-los, já que se manifestam através de necessidades interiores por uma vida mais plena e significativa. Ao utilizar suas potencialidades em todos os aspectos da existência, seja no trabalho ou em diversas circunstâncias e fazeres, o homem configura sua vida e lhe dá um sentido. Quando a pressão por ausência de perspectivas se torna muito forte, há um enrijecimento dos processos de criação caracterizados pela repetição de padrões antigos e dificuldades para mudanças. Conformismo e falta de flexibilidade são sintomas que podem ter se originado em impulsos inovadores reprimidos na história de cada um. Esses problemas tendem a se agravar na velhice, pela falta de estímulos e oportunidades. Torna-se necessário mobilizar os processos criativos, na tentativa de amenizar e mesmo anular possíveis sentimentos de estagnação ou conformismo na terceira idade, trazendo à vida novas expectativas e possibilidades. A criatividade traz consigo aspectos revolucionários, para facilitar mudanças e transformações no decorrer da existência, especialmente durante a nobre etapa de vida enfrentada na terceira idade. O propósito da arte é a comunicação de sentimento para sentimento entre diferentes pessoas, que se estabelece através de formas harmoniosas e suas relações, as quais estimulam sensações ou geram prazer estético. A arte torna visível o invisível. Criar não é uma solução para apaziguar-se ou relaxar; pelo contrário, as criações devem ser vistas como revolucionárias. Como trazem novas visões de vida, agitam e intensificam nosso mundo interior. Apesar das diferenças dos meios empregados pelos artistas para comunicarem suas idéias e emoções, a qualidade comum a todas as artes é dar forma e substância à imaginação integrada à sensibilidade e intuição. Fayga Ostrower, em seu livro Criatividade e processos de criação, entende que a bússola do artista é a sensibilidade, pois é através dela que a criação se articula. A sensibilidade é intuitiva em sua origem, porque apreende globalmente a realidade sem análise racional. No terreno da estética, é uma aptidão para entrar em ressonância ou sincronia com o mundo que nos cerca, através de suas imagens, formas, cores, sons e movimentos, captando silenciosamente sua expressividade latente.
A industrialização, multiplicada pelo consumismo, é uma mistura letal que pode acabar com a sensibilidade, porque vai gerando, pelo excesso de propaganda e padrões, uma rigidez em nosso aparato sensorial, limitando nossas percepções e experiências. Olhamos sem ver, escutamos sem ouvir; sentimos a vida de forma irreal, motivados pelos rótulos e modelos pré-fabricados da modernidade; podemos ir perdendo a sintonia com a vida e nossos sentimentos e nos distanciamos de nossa autenticidade. Estereótipos repetitivos e limitadores, uma vez gravados em nossa memória, são persistentes mas poderão desaparecer através de exercícios nos quais percepção, imaginação e atividades artísticas estejam integradas, propiciando assim crescimento pessoal. Citamos como exemplo, na área das artes visuais, os desenhos de idosos. Geralmente, para executá-los, eles utilizam imagens preestabelecidas, de esquemas conservados na memória, alguns desde a infância, cujo resultado são traços rígidos e sem vida. A qualidade dos trabalhos melhora quando, através de exercícios, entre os quais os de observação, desenvolve-se uma percepção mais sensível capaz de captar a expressão e movimentos do modelo exposto, e fixá-lo na superfície desejada, independentemente de uma previsão estereotipada. A proposta Quando começamos nossas aulas na UnATI/UERJ, desconhecíamos publicações ou trabalhos específicos sobre o ensino da arte na terceira idade, mas já vínhamos trabalhando, desde a década de 80, com a questão da criatividade, com empresários, professores, profissionais em geral, estudantes e universidades. Entretanto, nunca havíamos acompanhado um grupo de forma contínua e sistemática, como temos feito nesse estabelecimento com idosos, há mais de dez anos. O repertório e metodologia, baseados em nossa formação e experiências, foram ajustados às capacidades e necessidades dos alunos. Denominamos o curso de "Oficina da Expressão Através da Arte", pensando em sensibilizá-los para a descoberta e expressão de possíveis aptidões e talentos. Em condições apropriadas, os indivíduos herdam determinados potenciais que podem se manifestar em qualquer fase da vida, se houver condições apropriadas para que isto se dê, e nossa proposta seria ajudar os idosos nesse processo. As atividades planejadas não deveriam causar cansaço, nem ansiedade ou exigir esforços, mas sobretudo se apresentarem prazerosas e eficientes. Não seriam encaradas como meros passatempos, mas trariam em seu conteúdo suportes para promover transformações pessoais, como maior liberdade, autonomia e confiança, enriquecendo seus conhecimentos. Encontramos turmas bastante heterogêneas quanto à escolaridade, níveis sociais e situação financeira; havia analfabetos e doutores, idosos saudáveis e outros com problemas de saúde ou aprendizagem. Teríamos de usar uma linguagem simples que se adequasse igualmente a todos, assim como considerar em todas as propostas os limites e possibilidades de cada um. Embora os idosos estejam sujeitos à influência de fatores característicos da idade, como uma certa lentificação e menos eficácia para enfrentar novidades, essas alterações modulam a performance dos indivíduos, mas não os incapacitam. Nossa estrutura de percepção, assim como estratégias, vão se modificando em sintonia com o nosso viver, porque mesmo na velhice o cérebro possui uma plasticidade suficiente que permite a contínua incorporação de novos conteúdos (Guerreiro, 1999, p.63). Pela falta de estímulos e oportunidades durante a vida, muitas tendências e aptidões permanecem inertes e ignoradas. Trata-se de talentos reprimidos presos ao cotidiano da sobrevivência diária, talvez condenados a morrer sem terem se expressado. Para exemplificar, um ex-aluno nosso, N., comentou somente ter entrado em contato com a pintura na aposentadoria, especificamente na terceira idade, e que se não fosse a oportunidade de ingressar em um grupo dirigido, não seria capaz de reconhecer em si próprio um artista. Ângela Tavares dos Santos, uma aluna, escreveu um texto poético que traduz uma parte da intensidade de seus sentimentos em relação à autodescoberta: "Eu não sabia que era importante... o espetáculo? Eu apenas com minhas mãos e sensibilidade consegui ultrapassar fronteiras nunca imaginadas". São inúmeros os exemplos de artistas que continuaram criando até idades avançadas, alguns até depois dos 90 anos, como Picasso. Deve haver uma relação entre a longevidade e o sentido de prazer advindo da existência. Basta relembrar os inúmeros artistas, escritores e inventores que tiveram a oportunidade de se manter ativos até a idade em que faleceram (França, 1999, p.22). Todos têm suas histórias de limitações e desconhecem que, justo no limiar da velhice, podem realizar alguns de seus sonhos, encontrar novos valores e renovar seu estilo de vida. Ressaltamos o termo "limiar da velhice", porque nos surpreende ver pessoas da terceira idade curiosas, cheias de vitalidade e determinação, ávidos para enfrentar os desafios de um novo aprendizado. Nosso objetivo geral é despertar e expandir nos alunos potencialidades criadoras através de atividades artísticas, usando recursos de artes plásticas, história das artes, dança, música e poesias. Tão importante quanto suas obras, é o sentimento de renovação existencial e entusiasmo que os acompanha em todo o processo criador, pois o despertar de um talento resulta na reavaliação de suas capacidades, superação da estagnação psíquica, levando, conseqüentemente, à reintegração em suas vidas. Nossa proposta abrange diversos aspectos a serem trabalhados através de orientações e exercícios específicos.
Metodologia Em atividades com duração média de três horas semanais, conduzimos nossa programação, flexibilizando-a de acordo com as circunstâncias e necessidades dos alunos. Nas vivências corporais, facilitamos a expressividade e comunicação. Usando diferentes ritmos musicais, danças e sons, atenuamos possíveis tensões e rigidez, favorecendo assim a integração sensitivo-motora e a percepção estética, aliadas à espontaneidade individual. Ser espontâneo não é ficar imune a influências, mas ter coerência consigo mesmo; sendo uma saudável forma de expressão autônoma, diante de desafios, abre novas possibilidades de ação. Simultânea à educação artística, a educação estética se preocupa com a alfabetização do olhar, do ouvir, da expressão oral e corporal, como partes de um projeto de vida, visando ao desenvolvimento integral da capacidade criadora do ser humano. No decorrer da existência, em suas tarefas corriqueiras e funcionais, essa formação levará maior preocupação com a qualidade estética e harmônica de suas produções, trazendo aos idosos maior refinamento e conforto, independentemente de modismos e manias. As limitações de uma vida de conformação, por meio da criatividade, podem ser substituídas por um sentido mais pleno que supere frustrações e o sentimento de solidão. Todas as atividades são acompanhadas de esclarecimentos técnicos e teóricos, vivências e debates, relacionados ao cotidiano, à vida em geral, artes e ciências humanas, história da arte e ciências humanas. As oficinas As atividades oferecidas para a terceira idade na UnATI encontram-se na perspectiva da educação permanente. A idéia é possibilitar a constante atualização do conhecimento, pela discussão de valores e conceitos, visando à promoção da autonomia do cidadão, que é algo que não pode ser ensinado, mas vivenciado como um objetivo no processo educativo (Veras e Caldas, 2000, p.55). Segundo esses preceitos, iniciamos nossas atividades na oficina em 1993, e no seu desenvolvimento podemos distinguir duas fases: Inicialmente foi chamada de Oficina da Expressão Através da Arte, e cada turma tinha a duração de um semestre. Perdurou com esse nome por aproximadamente cinco anos, no qual basicamente sensibilizávamos os alunos para as artes, atuando sobre bloqueios criativos comuns a quase todos. Essas inibições se manifestavam pelo medo de errar e de parecer ridículo, o que gerava impedimentos crônicos, como o excesso de controle e autocrítica. Durante aqueles anos, recorremos a vivências corporais de Biodanza¹, jogos de teatro de Augusto Boal², canto, polifonias livres, coros rítmicos, poesias e iniciação às artes plásticas, através de modelagens, desenhos, colagens e pintura. Integrávamos essas disciplinas em um tema proposto ao grupo, para ser desenvolvido e trabalhado sob nossa orientação, e com recursos de que dispúnhamos. Um dos assuntos selecionados foi “Os quatro elementos da natureza: ar, água, terra e fogo”. Com músicas adequadas, cada elemento era interpretado pelos participantes e depois o conjunto final. Recorrendo a recursos analógicos, o tema se estendeu a outras propostas, tais como “As estações do ano”, “As fases da Lua”, “As idades do homem”, “Os pontos cardeais” e outras similitudes que foram surgindo no decorrer das aulas, das quais resultavam espetáculos coletivos improvisados. Criávamos poesias, ritmos, danças, polifonias livres e dramatizações. Também interpretamos as cores através dessas técnicas, como uma forma de sensibilizá-los para a pintura, roupas e visão plástica do mundo em geral. As analogias, semelhanças ocultas, geraram estímulos a pensamentos criativos e foram muito usadas nas nossas sessões.
Os idosos participavam alegremente de todas as etapas dos processos, pois estavam motivados pela nova aprendizagem, assim como pelas obras e realizações do grupo. Alguns talentos se revelaram nas nossas aulas. Havia a inexperiência e o certo constrangimento inicial, o que comprometia a expressividade, mas, através de brincadeiras e jogos, os idosos iam se descontraindo e se soltavam. Numa ocasião trabalhamos máscaras, confeccionado-as com cartolina e adereços. Juntamente à execução, discutimos sobre as nossas próprias máscaras e as sociais, e interpretamos esses papéis. Essa proposta havia partido da direção, como preparação para um baile de máscaras. Por sugestão de uma aluna, levamos ao Teatro Noel Rosa da UERJ uma coreografia nossa, "As três raças", inspirada na evolução das alas das baianas das escolas de samba cariocas. Na introdução do espetáculo foi apresentado um conjunto de esculturas vivas feitas pelos nossos "atores" da terceira idade, que iam ganhando vida e movimento ao som crescente de uma bateria, quando então começavam a sambar. O espetáculo provocou muita emoção entre os alunos e na platéia, pela dignidade e beleza apresentados, e por sua ligação com nossas raízes raciais e culturais. Todo o trabalho realizado, como uma possibilidade de resgatar sonhos, levou aos alunos uma grande liberdade para se expressar, agir e criar com maior confiança. Vindos de uma sociedade em que não havia lugar para os idosos, incluindo a rejeição à sua estética e expressão, através das criações coletivas, trabalhos e apresentações puderam superar alguns impedimentos interiores e descobrir novos rumos A arte ajudava-os em sua liberação, estimulando-os a "dar à luz a si mesmos", a essência de nossa proposta. Duas vezes durante o ano letivo havia renovação na freqüência, e começava uma nova turma. Em decorrência dessas mudanças, escassez de tempo e quebra da progressividade no ensino, os alunos acabavam não aprofundando suas obras e desempenhos. Entretanto, partindo de nossos grupos, muitos idosos se encaminharam a diferentes áreas artísticas, como teatro, artes plásticas, poesia, literatura, canto e dança, para dar continuidade à aprendizagem e buscar aprofundamento. Entre alguns, Ana Carvalho, que escreveu e dirigiu peças de teatro, como "As pequenas notáveis", em que os atores, alunos da terceira idade relatavam, de forma espirituosa e alegre, suas aventuras da juventude. A peça foi apresentada a públicos e teatros diversos, por mais de um ano de sucesso. Os acontecimentos foram alterando o ritmo do curso, forçando-nos a adotar novas medidas para dar continuidade ao projeto. Devido a problemas administrativos e de espaço físico, a aula foi reduzida para duas horas semanais; ao mesmo tempo, o número de alunos duplicava, tendo chegado a 40, impossibilitando temporariamente as vivências e jogos corporais com música. Para compensar a evidente falta de condições, estimulamos os participantes a se inscreverem nas aulas de “Biodanza: um encontro com a vida na UnATI”. Sem contra-indicações, a Biodanza trabalha diversos níveis de integração juntamente com a sensibilidade e as emoções, melhorando a saúde, a comunicação inter e intrapessoal e a expressão. A Biodanza, embora não indispensável à oficina, tem sido um ótimo complemento à aprendizagem artística. Havendo possibilidades, mais tarde retomaremos nossas técnicas iniciais, integrando-as ao projeto atual. A Oficina de Criação para a Terceira Idade Neste contexto iniciamos a segunda fase, a qual chamamos hoje de “Oficina de criação para a terceira idade”. As transformações, devido às novas circunstâncias, foram acontecendo e, para nos adaptarmos, acabamos nos concentrando nas artes plásticas (produção e técnicas), juntamente com história da arte. Demos também início à função de monitoria, quando alunos mais antigos expressaram vontade de estender o tempo nas turmas. Hoje alguns selecionados têm colaborado em aula, ajudando na orientação aos que chegam. As conseqüências têm sido positivas, pois a presença desses "veteranos", como eles mesmo se nomeiam, tem favorecido os novos alunos, que passaram a se desenvolver mais rapidamente em contato com a experiência dos colegas. A base em todas as artes plásticas é a experiência visual e tátil, na qual intencionalmente a proposição é organizar elementos, tais como linha, forma, volume, cores e luz, através dos quais possam ser traduzidas as idéias e emoções. Didaticamente, criamos exercícios progressivos de ordenação, explorando esses elementos na execução dos trabalhos. As técnicas auxiliam no sentido de um salto qualitativo e quantitativo na produção. Devido a instalações inadequadas para a prática de artes plásticas e a carga horária deficiente, os alunos trabalham em casa, podendo assim desenvolver e pesquisar outros materiais e temas, além dos abordados em aula. Embora os exercícios propostos sejam comuns a todos, o acompanhamento é individualizado, respeitando-se as tendências e aptidões de cada um. Semanalmente as obras são expostas ao grupo, apreciadas e comentadas por todos. Desta forma, avaliamos os avanços, respondemos a dúvidas e aprofundamos conteúdos. Sobre a programação da oficina, nos baseamos em:
Ocasionalmente, poderemos utilizar modelagem e outras técnicas. Durante a aula, os alunos desenham modelos vivos, para a qual eles mesmos posam, naturezas mortas, objetos do cotidiano e interiores. Ao ar livre, além de árvores e folhagens, registram imagens, como carros, motos, prédios, pessoas, animais – enfim, quaisquer elementos que lhes interessem. Esses esboços são posteriormente aproveitados para o desenvolvimento de trabalhos mais elaborados. Em nossos exercícios, incorporamos alguns que estimulam o hemisfério direito do cérebro, tais como o desenho cego, que é basicamente executado sem que o observador olhe para o papel, mas somente para modelo. Nessas condições, começam a aparecer formas expressivas e sensíveis, ao mesmo tempo em que vão se dissolvendo imagens rígidas e estereotipadas, conservadas como modelos congelados na memória. Trabalhamos também com colagens de diversos materiais, como papéis, letreiros de jornais e revistas, fotos, imagens, texturas diversas, cédulas, bilhetes e outras possibilidades, escolhidas livremente, posteriormente conjugadas a pinturas ou outras técnicas: intervenções sobre fotos xerocadas; desenhos de imaginação sem tirar o lápis do papel (inspirado numa técnica de Picasso) e desenho baseado nas sensações (na mão de cada aluno, coloca-se um pequeno objeto para o qual eles não podem olhar, só sentir, e pedimos então que eles o reproduzam no papel). Para aprenderem a construir sobre superfícies, utilizando-as inteiramente: preenchê-las com traços de margem a margem, em vários sentidos e depois de selecionar formas, entre as linhas cruzadas, destacando-as com preto ou em cores. Esse sistema é muito apreciado pelos alunos e pode gerar inúmeros trabalhos se usarmos além dessas, linhas curvas, inclinadas, quebradas descontínuas etc. Criamos um exercício divertido e prazeroso, que serve para estimular a imaginação e liberar participantes de tendências excessivamente formais. Consiste em ilustrar numa folha de papel, de olhos fechados, um tema por nós sugerido; geralmente o fazemos com uma historieta meio irreverente. Por exemplo: “A odalisca tira a sesta entre almofadas bordadas, enquanto um príncipe a olha pela janela e o cachorro late...”. No final, o resultado pode nos surpreender pela expressividade, e é divertido. É bastante comum em aula pedirmos que os alunos executem três ou quatro desenhos do mesmo modelo na seguinte ordem: 1) desenho na forma usual; 2) desenho cego; 3) com a mão esquerda. Depois de prontos, cabe a eles escolher o predileto. Em geral preferem o cego ou o da mão esquerda. Nesse momento eles passam a compreender o que significa a sensibilidade num trabalho, que independeria de uma reprodução realista, mas rígida. Quanto às pinturas, são inspiradas na realidade, na imaginação, abstratas, em interpretações individuais a partir de obras famosas, ou acopladas a outras modalidades. O processo de criação, além de dinamizar outros aspectos da vida, pode oferecer recursos profissionalizantes. Alguns de nossos "veteranos" já vendem regularmente suas obras, melhoram a receita doméstica e enriquecem seu cotidiano com a alegria da descoberta de um novo ofício. Outros participam de exposições, conquistam premiações e levam a asilos e comunidades novos conhecimentos e idéias, atuando como agentes multiplicadores. Os nossos alunos na terceira idade em geral chegam sem experiências anteriores em arte. Seus primeiros desenhos e pinturas são bastante infantilizados, mas não haveria muitas diferenças se comparados a um grupo de adultos mais jovens nas mesmas condições. Quase sempre os principiantes representam figuras humanas rígidas e padronizadas, com desproporções evidentes como mãos minúsculas em relação ao resto do corpo, pernas curtas, pés como bolinhas e planos mal-estabelecidos, o que indica, além da inexperiência, dificuldades de observação e coordenação visual-motora. Muitos pintores e desenhistas modernos deformam as figuras, mas porque querem ou precisam, e não porque não sabem fazer. Alguns de nossos alunos mais antigos já se tornaram artistas com uma linguagem própria; o que requer constância e determinação; outros se desinteressam ou vão embora por impossibilidades diversas. Aqueles que regularmente trabalham, progridem, enquanto os que se restringem aos horários da aula aproveitam os exercícios, melhoram, gostam, mas dificilmente chegarão a construir obras mais elaboradas. Sempre levamos livros de arte com reproduções de artistas famosos e estimulamos visitas a museus e exposições, para que ampliem seus conhecimentos e senso estético. Quando podemos, vamos juntos. A aprendizagem da arte é sem dúvida mais complexa do que o artesanato ou o desenvolvimento de outras habilidades. Sua grande importância, porém, está na transformação interior que ocorre simultaneamente aos fazeres artísticos. O homem que cria está recriando a si mesmo, num processo revolucionário que desafia a passividade e as imitações. Anualmente são organizadas exposições coletivas e individuais dos desenhos e pinturas de nossos artistas idosos, que surpreendem o público por sua qualidade. A sensibilidade não envelhece. Ficamos muito tristes quando alunos, no auge de sua criação, ficam impossibilitados de continuar trabalhando e se afastam. O professor de arte precisa sentir os alunos para entendê-los, e essa empatia vai gerando afeição e afinidades. Encoraja-os a ousarem sem medo, e fala sempre com transparência e simplicidade. As vitórias dos alunos serão suas também, porque estão unidos na empreitada comum de uma mútua aprendizagem. Quando a afetividade se integra ao ensino, alunos e professores se tornam militantes de uma mesma causa e caminham juntos. Cada um tem um lugar no mundo, que ninguém pode ocupar; somos insubstituíveis, e é essa sensação da singularidade de cada um e de cada momento, que nos entristece quando algum aluno vai embora. Conclusão Todos os fatores que direta ou indiretamente possam atuar na saúde e bem-estar dos idosos devem ser considerados e estendidos na medida do possível para instituições ligadas à gerontologia e saúde. Nossa proposta é quanto à expressão, criatividade e produção artística na terceira idade, articulá-los e situá-los como fatores positivos para a prevenção de doenças e para melhorias no estilo de vida. Sentimentos de autodescoberta, crescimento e de renovação existencial que acompanham os alunos em todo processo da criação artística se estendem às suas vidas, transformando-as e dando-lhes um significado maior. Notas *Artista plástica, arte-educadora. Diplomada em Licenciatura Plena de Educação Artística pela UERJ. Membro Didata em Biodanza pela International Biocentric Foundation .Professora da UnATI/UERJ em Biodança: Um Encontro com a Vida 1 e 2, e da Oficina de Criação. ¹ Biodanza, sistema criado pelo chileno Rolando Toro Arañeda. ² Augusto Boal, teatrólogo, criador do Teatro do Oprimido. Referências Bibliográfica ARAÑEDA TORO, Rolando. Teoria da Biodança. São Paulo: Associação Latino-Americana de Biodança, 1991. T. I, II, III. Coletânea de textos. ____. Biodanza. 1. ed. São Paulo: Olavobrás, Escola Paulista de Biodanza, 2002 ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1995 AZAMBUJA, Thais de. Expressão e criatividade na terceira idade. 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Recebido para publicação em: 06/4/2004
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