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Textos sobre Envelhecimento
ISSN 1517-5928 versão impressa

 


Textos Envelhecimento v.8 n.2 Rio de Janeiro  2005

 

Ser avós ou ser pais: Os papéis dos avós na sociedade contemporânea

Being grandparents or being parents: The grandparents roles in the contemporary society

 

Ewellyne Suely de Lima Lopes¹

Anita Liberalesso Neri²

Margareth Brandini Park³

 

Resumo

Tornar-se avô ou avó é um fato significativo na vida dos idosos, que por sua vez assumem uma posição importante na vida dos netos. Contudo, o número de indivíduos de meia-idade e idosos que deixam de ser simplesmente avós para assumir papéis de pais diante de seus netos tem aumentado nas últimas décadas devido a causas variadas como alterações demográficas e mudanças nos arranjos familiares e nos valores sociais. Os efeitos dessa mudança de papéis compõem um quadro amplo e complexo, o qual pode configurar-se com aspectos positivos – satisfação em prover a nova geração, senso de renovação pessoal e dever cumprido, ter companhia e afastar o sentimento de solidão – e negativos – queda na qualidade da saúde física e emocional, alterações na vida social e familiar, sobrecarga financeira e estresse. O presente artigo examina causas e conseqüências dessa demanda, que com freqüência cada vez maior, é colocada aos idosos.

PALAVRAS-CHAVE: Idoso; Relações Familiares; Relação entre Gerações; Responsabilidade Social.

 

Introdução

O papel dos avós no cuidado dos netos tem sofrido alterações significativas nos últimos anos.

Em meados dos anos 80, o grupo infantil “A Turma do Balão Mágico” expressou, através de uma música que falava de um avô doce como caramelo e fofo como algodão, o qual contava piadas e sabia brincar, a expectativa dos netos para com seu avô. Expectativa essa, muitas vezes atendida pelos avôs que se compraziam em estar com seus netos para oferecer-lhes grandes momentos de diversão, brincadeira e fantasia. As avós, por sua vez, nem sempre podiam despender tempo em brincadeiras por estarem ocupadas em atividades que visavam ao conforto dos netos, por exemplo, preparando-lhes os doces prediletos ou o quarto de dormir. Dona Benta, a avó que Monteiro Lobato apresenta em O Sítio do Pica-pau Amarelo e descreve como a mais feliz das avós, também representa esse ideal de avó que cuida, respeita e envolve-se com os netos em suas fantasias.

Os últimos trinta anos foram marcados por alterações nos arranjos familiares, na configuração sócio-demográfica da população e mesmo nos valores sociais. Tais alterações influenciaram as configurações familiares e também o tipo de cuidado que os avós dispensam a seus netos. Aqueles que antes desempenhavam os papéis de bonachões ou permissivos, passam a ter atribuições de pais, devendo agora impor limites e regras.

Sobre o assunto, percebe-se o delinear de um quadro complexo e multifacetado que merece atenção e análise cuidadosa, a fim de que se possa compreender essa realidade cada vez mais comum na vida dos idosos. Esse texto tem o intuito de apresentar dados e informações para que se olhe atentamente os papéis dos avós na vida de seus netos na sociedade contemporânea; as alterações de que têm sido alvos, suas causas e conseqüências positivas e negativas.

O papel dos avós: ser avós ou ser pais

As relações entre idosos e crianças estabelecem-se num espaço em que ambos são atores privilegiados de trocas intensas. A sociedade contemporânea privilegia a força da juventude e sua capacidade de produção, acabando por situar a criança e o idoso num espaço de “não-ser”, pois considera que a criança ainda não produz e que o idoso deixou de produzir (Park, 2004; Gusmão, 2003; Oliveira, 1999). Essas duas categorias etárias acabam por identificar-se e aproximar-se, pois não sendo ouvidos pelo adulto jovem, detentor de posição social privilegiada, acabam por estabelecer entre si um diálogo mútuo e muitas vezes prazeroso. Assim, as relações intergeracionais construídas entre idosos e crianças são recheadas de afeto e estima.

Os idosos podem cuidar, transmitir informações culturais resgatadas de suas memórias e conhecimentos adquiridos através da experiência. A criança, dotada de agilidade e avidez por conhecer, pode impelir o velho a movimentar-se para acompanhá-la, a revirar suas memórias e saberes para oferecer-lhe o que anseia. Diante da criança que transborda a vivacidade que lhe é própria, o velho sente-se preencher pelo desejo de viver. Essa proximidade pode ser vista com maior facilidade na relação entre avós e netos.

Contudo, os avós nem sempre puderam conviver com os netos e acompanhar seu desenvolvimento como acontece atualmente. Devido à maior expectativa de vida decorrente do aumento da longevidade e da melhoria da qualidade de vida, na atualidade os avós podem, muitas vezes, acompanhar a vida de seus netos até que estes cheguem à idade adulta (Glass Jr & Huneycutt, 2002; Reitzes & Mutran, 2004). Além disso, a idade em que uma pessoa torna-se avô ou avó também tem sido muito mais variada, havendo avós “de primeira viagem” com idades entre 35 e 70 anos. Ser avô ou avó por um período maior de vida pode trazer como conseqüência, mudanças nos laços intergeracionais e até no significado do papel a ser desempenhado na relação, devido à possibilidade de maior convivência entre as gerações.

Tornar-se avô/avó é um fato marcante na vida do indivíduo. Em algumas sociedades, conforme estudos antropológicos, tal fato chega a determinar o status social dos adultos. Por exemplo, em algumas comunidades africanas os avós são chamados de “nobres”, o que pode indicar o destaque conferido à posição familiar (Papalia & Olds, 2000).

Em nossa sociedade, avôs e avós tendem a ser figuras privilegiadas no imaginário das pessoas. São, com algumas exceções, amados e recordados com imenso carinho pelos netos. Nesse imaginário, a figura dos avós é erguida com bases nas imagens do avô que brincava com os netos, ensinava-lhes a arte da pesca, da caça, construía-lhes brinquedos, dava conselhos. À avó cabia preparar-lhes o espaço para brincar, cuidar para que pudessem estar livres de preocupações, fazer-lhes os pratos prediletos, contar-lhes estórias e histórias e muitas vezes proteger-lhes das mães quando haviam feito alguma travessura.

Para os avós, os netos são objeto de um amor incomensurável e muitas vezes considerado maior que os já vividos anteriormente. As crianças são tidas como fonte de renovação de si mesmo e da família. Parece-lhes a confirmação de sua perpetuidade, especialmente se estão em idade avançada e percebem a proximidade da morte. Num estudo a respeito dos efeitos sobre os avós da perda parcial ou total do contato com netos, Drew & Smith (2002), encontraram que tal fato gerou intenso sofrimento, queda na qualidade de vida e na saúde física e emocional. Simone de Beauvoir (apud Oliveira, 1999) diz que os sentimentos direcionados aos netos são os mais calorosos e mais felizes das pessoas.

Nessa relação entre avós e os netos – que pode ser definida como padrão até meados da década de 70 – muitas vezes com contatos freqüentes e até diários, mas habitando espaços distintos, havia um espaço para que eles se responsabilizassem pelos netos sem ter que lhes impor as normas de disciplina como os pais o faziam; podiam mimá-los e satisfazer-lhes as vontades. Depois, os netos iriam para casa e os pais estavam incumbidos de educá-los e impor-lhes os limites. Como diz Barros (1987), este é o lado do afeto, visto como mais puro pelos avós porque dissociado das obrigações paternais e maternais. Relação doce e prazerosa essa, alcançada muitas vezes com satisfação e sentimento de realização pelos avós.

Não se pode afirmar que não exista mais esse tipo de relação. Contudo, por mudanças diversas, tem havido um aumento considerável de casos em que os avós passam a desempenhar o papel de pais, em alguns casos com todas as funções pertinentes, deixando de viver a experiência de serem simplesmente avós. Dellman-Jenkins et al. (2002) dizem que os avós tiveram seus papéis expandidos, e agora eles têm netos vivendo consigo, obtém sua custódia legal e lhes oferecem cuidados diários, além de se responsabilizarem também financeiramente por eles. A forma de vivenciar esses papéis, que não lhes são novos, mas acontece em novas circunstâncias, é bastante diversificada podendo sofrer influência de fatores como, por exemplo, os arranjos familiares.

No que se refere à estrutura familiar, há dois modelos distintos que englobam avós e netos nessa situação de cuidado e papéis expandidos. Na primeira, temos os lares compostos por três gerações que teve considerável aumento a partir da década de 80, em que ambos os pais ou ao menos um deles reside com avós e netos. Já na segunda, mais comum a partir da década de 90, os pais estão ausentes do lar e cabe aos avós todo o cuidado dos netos (Goodman & Silverstein, 2002).

As estruturas familiares citadas trazem consigo exigências e conseqüências distintas para os avós. Há avós que cuidam dos netos por um período do dia porque os pais precisam trabalhar e não têm outro local onde as crianças possam ficar quando não estão na escola, ou ainda em tempo integral porque toda a família reside nos chamados lares multigeracionais devido a, por exemplo, dificuldades financeiras. Nesse tipo de arranjo podem ser apontados benefícios e dificuldades conforme o quadro em que a família está inserida. Em alguns casos, pode haver uma divisão das responsabilidades, maior união entre os membros e aumento dos recursos familiares. Todavia, há casos em que prevalecem os conflitos entre avós e pais quanto à educação das crianças ou ainda descompromisso por parte dos pais e perda de privacidade. Tais conflitos e perdas aumentam o risco de depressão entre mães e avós.

Se ambos os pais estão ausentes de casa e somente os avós responsabilizam-se pelos netos, o segundo tipo de arranjo familiar apontado, têm-se o cenário propício para que esses avós passem a ocupar o papel de pais substitutos. Não diferente do primeiro arranjo familiar, nesse tipo também são encontrados ônus e benefícios. Dificuldades financeiras, stress físico e emocional são mencionados pelos avós, mas também é indicada a existência de satisfação dos avós pela oportunidade de prover benefícios às novas gerações. Comparando-se os dois tipos de estruturas familiares, há indícios de que os avós que vivem em famílias com o segundo tipo de arranjo descrito são mais sobrecarregados, estando também mais sujeitos a isolamento social e estresse emocional, apesar de ambas as situações gerarem estresse (Goodman; Silverstein, 2002).

Assim, o papel dos avós na educação dos netos pode estar sendo delineado sob um novo aspecto na atualidade, baseado em diferentes formas de organização familiar. Os avós envolvem-se no cuidado dos netos de modo que passam a substituir os pais. Essa substituição ultrapassa os limites práticos e instrumentais, inserindo-se no imaginário das partes envolvidas, pois não é incomum presenciarmos netos chamando carinhosamente seus avós de mãe e pai, ou ainda afirmando que têm duas mães e dois pais quando o cuidado é divido entre as partes.

 

Tornando-se pais dos netos: causas e conseqüências

Em relação às causas que conduzem avós a assumirem essa responsabilidade, a literatura gerontológica aponta os principais fatores. Infelizmente, são situações que têm aumentado em número e algumas vezes são cercadas por conflitos e sofrimentos. As causas mais comuns relacionam-se a alterações nos valores da sociedade e por conseqüência no modo de vida moderno. Exemplificando:

inserção das mulheres no mercado de trabalho dificultando-lhes o cuidar integral dos filhos;

dificuldades econômicas como desemprego dos pais e necessidade de ajuda financeira por parte dos avós;

necessidade de ambos os pais trabalharem para proverem o sustento doméstico;

divórcio do casal com retorno para casa dos pais juntamente com os netos;

novo casamento de pais separados e, não aceitação das crianças por parte do cônjuge;

gravidez precoce e despreparo para cuidar dos filhos;

morte precoce dos pais devido à violência ou doenças como a AIDS;

incapacidade dos pais decorrente de desordens emocionais ou neurológicas;

uso de drogas ou envolvimento em programas de recuperação para usuários de drogas;

envolvimento em situações ilícitas e problemas judiciais (Santos, 2003; Minkler & Fuller-Thomson, 1999; Dellman-Jenkins et al., 2002; Goodman & Silverstein, 2002; Glass Jr. & Huneycutt, 2002).

Para ilustrar o aumento desse tipo de estrutura familiar, que envolve a convivência constante de avós e netos na sociedade contemporânea, podemos apresentar alguns dados demográficos. Nos Estados Unidos, em 1970 havia 2,2 milhões de indivíduos com menos de 18 anos vivendo em residências mantidas por avós. Em 1997, 3,74 milhões de crianças estavam nesta situação. (Glass Jr & Huneycutt, 2002). Apesar de não dispormos do número de crianças sob a responsabilidade das avós no Brasil, sabe-se através do censo demográfico de 2000 que 20% dos domicílios brasileiros tinham idosos como chefes de família, o que expressa um número de mais de 8 milhões de lares. Deste total 36% são compostos por casal com filhos e/ou outros parentes (IBGE, 2002). Esse fato pode indicar uma probabilidade maior de haver também no Brasil muitos netos residindo com os avós e sob sua responsabilidade.

 

Ter avós como mentores ou tutores pode ser benéfico para as crianças, principalmente porque poderão usufruir uma sensação de pertencimento à sua família de origem, especialmente na ausência dos pais. Contudo dificuldades emocionais para as crianças também podem resultar dessa situação. Para os avós não é diferente, havendo benefícios e dificuldades relacionadas a esse compromisso.

 

Dellman-Jenkins et al. (2002), num trabalho em que reuniram informações sobre as condições dos idosos que assumiram o compromisso de cuidar de seus netos e desempenhavam o que denominaram “papéis expandidos de avós”, citaram estudos realizados nos Estados Unidos sobre o assunto. Resumindo os resultados encontrados pelas pesquisas quanto aos efeitos da admissão dessa função, relataram que os sujeitos apontaram efeitos positivos e negativos. Indicaram aumento nos sentimentos de auto-estima, competência e realização, bem como sensações elevadas de moral e felicidade, porque estavam exercendo um papel crucial para que as crianças não fossem levadas para casas estranhas ou instituições de adoção e mantivessem um senso de segurança e continuidade familiar. Quanto às dificuldades, cansaço, problemas de saúde e rupturas em suas vidas familiar e social, e ainda referentes ao âmbito financeiro, foram apontados.

 

Procurando compreender as diferentes causas e conseqüências de duas situações distintas de cuidado – com ao menos um dos pais presentes no lar e com ambos os pais ausentes – Goodman & Silverstein (2002) empreenderam uma pesquisa com 1.058 indivíduos. Em relação às principais causas referentes à primeira situação estão: a ajuda financeira, o divórcio e a necessidade de os pais das crianças trabalharem. Quanto à segunda situação, o uso de drogas e problemas mentais ou emocionais das mães, bem como negligência destas para com os filhos são as causas mais destacadas. As relações entre avós e netos são igualmente próximas nos dois tipos de estrutura familiar, mas há mais conflitos na segunda, sugerindo que tais conflitos possam ser decorrentes da responsabilidade parental pela disciplina das crianças. Referente ao estresse gerado pelas situações, eles encontraram que cada uma traz consigo eventos estressores diferentes e que a relevância dos mesmos é condicionada pelas expectativas dos avós sobre a estrutura familiar, expectativas essas delineada pelo contexto cultural em que se inserem.

 

Segundo Glass Jr; Huneycutt (2002), as mudanças decorrentes de assumir a função parental na idade avançada são mais dramáticas que em outro momento da vida. Por exemplo, os idosos já não têm a mesma energia para cuidar de crianças, sendo usualmente mais vitimados por fragilidades físicas e de sua saúde. Há idosos que se ocupam do cuidado das crianças e de idosos fragilizados, sendo alvo de uma sobrecarga de tarefas e responsabilidades. Como perdas mais relevantes decorrentes da situação, os autores citam as relacionadas aos objetivos e planos futuros dos idosos, que envolviam a vida social culturalmente esperada para a velhice, atividades de lazer e independência advinda da saída dos filhos de casa. Além desses fatores, baixa saúde percebida e queda no status financeiro também são perdas consideráveis. A vida social é alterada e há um sentimento de estar deslocado, pois os idosos não têm tempo para interagir com os amigos de sua idade e os pais dos colegas de seus netos lhes parecem diferentes e distantes. Muitos se envergonham e têm sua auto-estima afetada porque seus filhos não foram capazes de cuidar de seus netos, o que pode ainda causar ressentimentos para com os filhos. Os autores relatam ainda uma pesquisa apresentada em 1994 por Shore & Hayslip, na qual investigaram a condição psicológica de avós cuidadores. Dentre os quatro critérios avaliados, a responsabilidade parental trouxe queda em três deles: satisfação em serem avós, percepção positiva da relação neto-avô e, sobretudo, bem-estar psicológico. Apenas o significado pessoal do papel de ser avô não foi afetado.

 

Apesar de a maioria dos argumentos de Glass Jr & Huneycutt (2002) apresentarem conotação negativa em relação aos efeitos do cuidado dos netos sobre os avós, os autores citam estudos que apontam que essa experiência pode ser gratificante para os últimos por trazerem uma renovação de suas metas e uma certa movimentação para suas vidas, além de novos padrões de interação social. Apesar de disporem de menos tempo para atividades de lazer, os avós encontram novas oportunidades de envolvimento podendo evitar a solidão e o isolamento que às vezes os acometem. Mesmo tendo suas vidas sociais afetadas de várias formas, muitos avós defendem que ter alguém em casa compensa as demais perdas.

 

Especificamente sobre lares multigeracionais, envolvendo avós, pais e netos, Goodman (2003) encontrou que o bem-estar dos avós é afetado pela qualidade das relações com pais e netos, sendo os vínculos emocionais entre avós e pais mais relevantes e poderosos que a proximidade física e a oportunidade de interação. Argumenta ainda que um bem-estar diminuído da avó pode comprometer o cuidado dispensado ao neto.

 

Num estudo brasileiro, no qual relata e analisa depoimentos de avós e netos de classes populares, que vivenciam a situação de cuidado em uma cidade do interior paulista, Oliveira (1999) defende a existência de um processo co-educativo, no qual ambas as gerações influenciam-se e educam-se mutuamente. Percebe-se por parte do autor um olhar otimista sobre essa relação, ocupando-se principalmente da tarefa de mostrar as influências e modificações recíprocas ocorridas na convivência diária dessas duas classes de idade. Afirma que houve entre os avós, o reascender de um sentimento de esperança promovido pelos desafios de tomar conta dos netos e o encontro de um sentido para a própria existência.

 

Os avós entrevistados por Oliveira (1999) mencionam algumas dificuldades, mas a maioria atém-se principalmente aos benefícios e felicidades advindos do cuidar dos netos, chegando o autor a ressaltar a luta desses atores para confrontar os percalços e dificuldades com relações cultivadas pelo afeto. Apesar de o convívio com as crianças representar algumas vezes o contato diário com os possíveis problemas que os aproximaram – separação dos pais ou abandono, por exemplo – fazendo-os confrontar-se com um sentimento de fracasso em relação aos filhos, a relação de troca que se fortalece entre avós e netos indica que conseguiram contornar os problemas e construir uma nova maneira de viver a vida. Sentimentos de solidão e tristeza foram relatados pelos avós, provenientes dos momentos em que os netos não estão em sua companhia, indicando sua satisfação em tê-los por perto. Um momento de frustração descrito pelos avós acontece quando, devido às dificuldades financeiras, os avós não podem dar aos netos o que pedem e há ainda um certo receio de não conseguir proporcionar-lhes tudo o que precisam. Mas as frustrações e dificuldades parecem pequenas quando se sentem preencher por certa leveza diante da vida que as crianças lhes apresentam e os ensinam a sentir e aproveitar.

 

O trabalho de Minkler & Fuller-Thomson (1999) objetivou examinar saúde percebida, satisfação com a saúde e limitações funcionais (atividades de vida diária – AVD’s – e instrumental – AIVD's) entre avós cuidadores e não-cuidadores. Segundo essas autoras, estudos têm sugerido que avós cuidadores são vulneráveis a um grande número de problemas incluindo depressão, isolamento social e pobreza, além de demonstrarem saúde percebida mais baixa, considerável comorbidade, busca tardia de ajuda quando necessária e tendência a subestimar a severidade de seus problemas de saúde. Após entrevistarem 3.477 avós, encontraram os seguintes resultados: avós cuidadores reportaram mais limitações na realização de AVD’s que os não-cuidadores, possivelmente porque estão mais propensos a viver situações estressantes e sujeitos a experimentar carência de recursos, ou ainda porque mais freqüentemente ficam expostos às próprias limitações funcionais em decorrência das exigências provenientes das atividades relacionadas ao cuidar de uma criança. Outro resultado obtido sugere que avós cuidadores estão mais propensos a relatar baixa satisfação com sua saúde e uma tendência estatística indicou que os cuidadores têm mais baixa saúde percebida que os não-cuidadores. Para as autoras, os resultados relativos à satisfação com a saúde e saúde percebida podem estar associados com depressão e/ou maior consciência de suas limitações funcionais.

 

Para Kropf & Burnette (2003) os avós que cuidam dos netos estão mais sujeitos a apresentar problemas funcionais e de saúde, possuem mais chances de apresentar sintomas depressivos e têm dificuldades para manter contato com a rede social de amigos. Em contrapartida, esses avós relatam consistentemente benefícios trazidos pela experiência de cuidar como alegria e significado para suas vidas, proporcionando companhia e maior propósito social.

 

Algumas vezes, os avós podem estar conscientes das conseqüências caso decidam assumir compromissos que os levem a desempenhar um papel diferente do de ser simplesmente avós para os netos, tornando-se seus “pais”. Essa decisão pode não ser fácil ou confortável. Talvez um dos fatores motivadores para que digam sim, sejam as expectativas sociais para que os avós acolham seus netos. Nossa sociedade valoriza laços e responsabilidades familiares de modo que pode parecer cruel ou insensível se os avós deixam de cuidar de seu neto – “sangue de seu sangue” – caso ele precise. Mas, possivelmente não é só a sociedade que os impele a assumir esse compromisso; os próprios sentimentos que nutrem pelos netos o fazem. Os avós, geralmente, preferem ter os netos consigo, mesmo em situações difíceis e sofridas, que vê-los em instituições ou sendo cuidados por outras pessoas. Tentam também trazer segurança e senso de continuidade para a vida dos netos, especialmente para aqueles que têm os pais ausentes (Jendrek, apud Goodman & Silverstein, 2002).

 

Todavia, há avós que dizem não aos filhos quando estes lhes pedem para que os ajudem a cuidar das crianças. Numa pesquisa envolvendo avós de classe média no Rio de Janeiro, Barros (1987) ouviu depoimentos de avós que não querem ser “avós de profissão” ou “avós de tempo integral”, pois julgam essas categorias como faces negativas do papel de avós e não pretendem assumi-las. Uma das depoentes disse haver um espaço da velhice em que os idosos sentem uma necessidade muito grande de aproveitar cada hora, cada minuto. Muitos avós acham que criaram seus filhos e agora têm o direito de ir em busca de outros interesses, sentem-se num outro momento da vida e não desejam assumir tal compromisso (Papalia & Olds, 2000; Sommerhalder & Nogueira, 2000). Talvez esse posicionamento relacione-se com a construção social do conceito de Terceira Idade e com as idéias veiculadas sobre a mesma. Sobre o assunto, Debert & Simões (1998) definem a criação dessa etapa da vida pela sociedade, como uma forma de negar o envelhecimento, transformando os anos iniciais da velhice num período caracterizado como o momento de voltar-se para o lazer, para novas descobertas e aprendizados, e para a concretização de sonhos e planos que as exigências da vida adulta não permitiram realizar. Assim, os idosos acabam por adotar um estilo de vida em que não cabe cuidar dos netos como babás ou cuidadores primários.

 

Percebe-se então, a presença de posições distintas quanto ao cuidado dos netos. Há avós que não titubeiam ao aceitar o cuidado dos netos para si, cientes ou não dos possíveis percalços a serem enfrentados. Mas há também avós que não titubeiam ao dizer não para esse tipo de solicitação. Fatores como nível educacional e classe sócio-econômica dos avós podem influenciar o posicionamento dos idosos nessa situação. Idosos com melhor nível sócio-econômico apresentam-se como o alvo principal da mídia, pois têm maior possibilidade de acessar as oportunidades que o mercado lhes oferece para viver uma velhice classificada como ativa, recheada por viagens, atividades variadas e busca pelo rejuvenescimento. As decisões dos idosos refletem posições que não devem ser julgadas, mas compreendidas como exemplos da heterogeneidade que caracteriza a experiência de envelhecer e de posicionar-se nas relações familiares.

 

Conclusão

Há poucas referências na literatura nacional sobre a mudança de papéis dos avós. A maioria dos dados apresentados anteriormente resulta de pesquisas realizadas no cenário internacional. Apesar de resultarem de uma realidade diferente da existente no país, tais estudos podem contribuir para elucidar o quadro em que as avós e avôs envolvidos no cuidado de seus netos se encontram, seja dividindo as responsabilidades com os pais das crianças ou ocupando-se integralmente desse compromisso. O interesse por pesquisas sobre o assunto parece ter sido estimulado principalmente pelo número crescente de idosos vivenciando essa situação, que muitas vezes lhes aparecem como inusitadas. Percebe-se uma preocupação maior dos pesquisadores em conhecer os efeitos dessa nova condição familiar sobre a vida dos idosos.

 

Antes os avós cuidavam dos netos, na maioria das vezes, de maneira esporádica e casual. Atualmente e com certa freqüência, entramos em contato com histórias de avós que ajudam os filhos a cuidar das crianças, ou ainda histórias de avós que se tornam cuidadores integrais e até legais dos netos, ocupando mesmo um papel de pais substitutos.

 

Concernente aos resultados identificados nos estudos relacionados, a maioria aponta efeitos negativos sobre diversos âmbitos da vida dos avós, tais como sobrecarga financeira, conflitos com filhos pela educação das crianças e às vezes pela custódia legal dos netos, queda na qualidade de saúde física e emocional com incidência de depressão e baixa saúde percebida, interferência na vida social e familiar, cansaço e esgotamento emocional. Todavia, tais trabalhos não deixam de ressaltar que muitos avós também são afetados por efeitos positivos, dentre os quais um senso de renovação pessoal e de dever cumprido por estarem oferecendo a seus netos a oportunidade de ter uma família; a oportunidade de ter companhia e livrar-se do sentimento de solidão e a gratificação por estarem provendo uma nova geração com cuidados e ensinamentos, o que reflete a geratividade – característica comum a esse período de vida conforme a teoria eriksoniana de desenvolvimento epigenético.

Assim, essa situação – ser mãe/pai de crianças e/ou adolescentes novamente – muitas vezes inesperada nesse momento de suas vidas, impacta sobre a saúde física e emocional desses avós, afetando sua qualidade de vida. Contudo, as relações com os netos envolvem também sentimentos, senso de obrigação familiar e satisfações que em muitos casos sobrepõem-se sobre o ônus que o cuidar dos netos pode acarretar.

 

Compreender essa nova configuração familiar, em que muitos idosos estão inseridos, é tarefa para os profissionais preocupados com o bem-estar dos envolvidos nessa relação.

 

Notas

1 Mestranda em Gerontologia pela Faculdade de Educação da Unicamp-SP

2 Coordenadora do Curso de Pós-graduação em Gerontologia da Unicamp-SP

3 Pesquisadora Centro de Memória da Unicamp-SP

Trabalho apoiado pela Fapesp, processo 04/05775-1

 

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Abstract

Becoming grandparent is a meaningful fact in the older persons' lives, and they usually play an important role for their grandchildren. However, the number of middle-aged and older adults that exchange these grandparents roles for parents ones has increased in the last few decades due to different determinants as demographic alterations, and changes in the living arrangements and social values. The effects of this exchange of roles draw a large and complex picture, that if on one hand has positive aspects such as satisfaction in providing the new generation, having company and minimize loneliness, self-renewal and accomplished duty, on the other hand has negative ones as low physical and emotional health, alterations in the social and familiar life, financial overburden and stress. This paper examines causes and consequences of this demand, what has been put on the older persons with crescent frequency.

KEY WORDS: Aged; Family Relations; Intergenerational Relations; Social Responsibility.

 

 

Recebido para publicação em: 28/3/2005.
Aprovado em: 03/5/2005
Correspondência para:

Ewellyne Suely de Lima Lopes

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